Recomeçar ... 


(Criação: Estúdio Romeu Julieta. Porto Alegre, RGS)



“ no Brasil o passado não passa
e o futuro já passou"
(Eliane Brum).

O texto que segue foi produzido por Carlos José "Cacá" Fontes Diegues.
O Cacá Diegues (1940).
Publicado no jornal ‘O Globo’ (21.07.2017).
Caso você não o conheça. É um premiado e destacável cineasta brasileiro.
Um dos criadores do ‘Cinema Novo’.
‘Cinema Novo’?.  É bom lembrar.
Aquele movimento cinematográfico brasileiro que começou num Congresso em São Paulo (1952) onde jovens cineastas queriam criar um cinema mais realista. Com mais conteúdo social. E, é claro, com menor custo. Assim como nós. Espectadores daqueles tempos eram influenciados pela ‘Nouvelle Vague’ francesa. Pelo neorrealismo italiano. Era fazer cinema, como eles diziam, com "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça". Os filmes seriam voltados à realidade brasileira e com uma linguagem adequada à situação social da época. Temas vinculados a triste realidade nacional. Como se dizia na época: ‘subdesenvolvido’.
Surpreendido se ficou assistindo o clássico “Rio, 40 graus”. Filme que mostrava o povo brasileiro. Ao povo brasileiro.
Ao lado de Cacá Diegues aparecia Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Paulo César Saraceni. Aqueles lembrados. São muitos outros. Assim como eles. Cineastas. Nós. Muitos espectadores. Sendo um deles.
Acreditava estar construindo... Um novo. (Ah! Como se acreditava).
Hoje. Salvado de uma geração. Insistindo em permanecer por aqui. Dezenas de anos depois. Descobre-se. Tanta ilusão.
No momento. Lembrando o poeta cearense. Quando nos dizia que: “Cuidado meu bem há perigo na esquina. Eles venceram. E o sinal está fechado para nós que somos jovens”.
Ficou-se. Menos jovens (que pretensão). E o sinal... Continua fechado.
Chega-se aqui. Agora. E a lembrança vem.
Como Cacá Diegues. Era uma geração que acreditava no futuro.
Hoje. Fica a duvida. Futuro? Ah, o futuro? ... Afinal. O que é isto?
Deixemos de conversa. Leiam o texto.


Adeus às ilusões.
Não temos onde depositar esperança.
A sensação que sinto diante disso tudo é de enorme desalento.
Sempre me surpreendi com quem só pensa no poder, nunca entendi direito esse desejo doentio de mandar nos outros. E, de preferência, em todos. Mas nunca deixei de aceitar a necessidade de um governo, de uma concertação em torno da vida em comum, num mesmo espaço geográfico e cultural a que chamamos nação. Não tem outro jeito.
Essa ideia abstrata de nação é que nos mantém juntos, em torno do projeto simples de sermos felizes, uns com os outros. Por isso que o fracasso da nação nos faz tanto mal, nos faz sofrer tanto. Porque ele é a constatação de que fomos incapazes de realizar o sonho a que estávamos generosamente destinados. Essa distância entre destino e logro, entre o que almejamos e o que conseguimos, nos faz penar por que ainda acreditamos (ou acreditávamos) em nós mesmos.
Não vamos perder tempo com os exemplos históricos.

■ Eles começam lá atrás, talvez com a Independência, feita pelo príncipe colonial para que tudo continuasse como sempre esteve;
■ passam pela República, proclamadas pelos senhores de terras, latifundiários que assim se vingavam da Abolição imperial;
■ e vão até o acerto cordial para o fim da recente ditadura. Tudo se mistura sem formar caráter, como numa sopa sem gosto.

Diante de tantos graves erros políticos e morais de todas as tendências e partidos, não temos mais onde depositar nossa esperança, não vemos mais a quem confiar a nação.
Não achamos mais nem mesmo por quem torcer, como no futebol, coisa que sempre nos fez respirar e sobreviver.
Mesmo numa dolorosa experiência política, como a do golpe de 1964, sempre podíamos sonhar com uma saída e torcer por nossos possíveis heróis.
Enquanto os militares instalavam o poder autoritário, ouvíamos dizer que Brizola preparava a reação no sul, nos sussurravam que Marighella e sua gente se armavam, nos garantiam que a esperteza de Ulysses e Tancredo não ia nos deixar nessa por muito tempo.
Hoje, da nossa arquibancada cívica, assistimos a um jogo secreto que, de vez em quando, só nos revela incompetência e propinas. Sempre com muito escândalo.
Mas talvez seja essa a esperança que nos resta.
Agora, que não temos mais por quem torcer e vamos depender exclusivamente de nós mesmos.
Temos que tentar reconstruir o país como se estivéssemos começando do começo, começando de zero.












“O país não deu certo e
ninguém quer saber por que.”
(Alberto Dines).

















Gente... do planeta.

(foto: Khimushin. Atacama, Chile).













● A Arte fotográfica de … Firos Syed

                                                                            (Qatar).















    ● A Arte... As esculturas urbanas.


                  (Criação: Domingo Muguerza. Malaga Espanha)










                           De quem é o olhar ...

(Foto: Elliott Erwitt . St. Tropez, França.1981)

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?


                                                 (Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”).












A Arte…  e a feira.


                                                             (Foto: Voltan Baar. Karatai, Konya. Turquia).














                       ● Imagens do Ler.

(Foto: Yeow Chin Liang. Yangon, Myanmar)











    Gente... do planeta.

(Carajá Bananal. Araguaia. Tocantins, Brasil).













       
         ● Um pouco de... Salvador Dali.

("Mujer desnuda", 1945)
















Uma visão de Arte... Uma porta.


(Lake Wort. Florida, EUA). 













                                               ● A Arte... e a rua.

(Criaação: Zelva1.  Lima, Peru).














Um pouco de... Andre Derain* (1880-1954)

(“The Turning Road”).



*: pintor francês de Chatou. 












                                                  Ousada. Abusada. Atrevida ...


" Eu sou ousada, eu sou abusada, eu sou atrevida.
Pago sérias consequências por isto.
Pago por insistir em ser inconsequente.
Me acho madura? Ás vezes.
Agora sou uma adolescente, ou pelo menos pareço.
 A minha imaginação vai longe, ultrapassa as fronteiras
e busca o desconhecido, o novo... ”


                                                          Alexandra Valença*

















● Um pouco de Albena Vatcheva*  (1967).




                                     *: Pintora da Bulgária (Sofia). 














A Arte... e a rua.
    A beleza da Arte em forma de grafite.
    A Arte que todo mundo vê.

                                     “A vida na metrópole contemporânea está cada vez colorida. 
Os muros, paredes e postes da cidade enchem nossos olhos com as mensagens
 dos grafites, pichações e stickers. 
Na concorrência com os anúncios publicitários e políticos, 
com a arquitetura dos arranha-céus e as sinalizações de toda espécie, 
esse tipo de interferência na paisagem urbana vai se expandindo e, 
por meio das suas intervenções, esses artistas refazem nossa relação com a cidade: 
transformam suas paredes, muros e postes em territórios apropriados,
 repletos de afetividades, relações e histórias.

(Renata Sant’anna)*.



Cidade de São Paulo (Brasil). Abril de 2011.
Grupos de artistas se reúnem e criam o “Museu Aberto de Arte Urbana”.
Ocupam avenida na periferia da cidade (Avenida Cruzeiro do Sul).
E espalham sua arte nas 33 colunas (4m de altura) 
sujas e cinzentas do metrô.
Ai está.
Algumas delas...  Selecionadas para vocês.



                                                                              (AnaK)


                                                                                 (Chivitz)



                                                                                                  (Locones)


                                                                                                        (Onesto)


                                                                               (Ozi)



                                                                       (Socidas)




*: Educadora. Museu de Arte Contemporânea. Universidade de São Paulo.
















Ode ao Cidadão Anônimo*


                                                                                (Magritte)


Tu, cidadão anônimo, igual a ti próprio e a mim/outro
Que compras tudo o que és capaz de comprar
E deitas para o lixo tudo o que compraste

Que ganhas a tua vida perdendo a tua vida
Vida que é pequena e que só tens uma
Mas finges ignorar

Que pagas as contas que fazes sem saber porquê
Mas esperas descontos nos contos do vigário
que os teus credores te contam

Tu que ainda há pouco alimentavas a ilusão
de que o que fazes é produtivo para o teu país,
vais verificando dia a dia
que o teu trabalho é inútil principalmente para ti
porque um dia te despedem
até ficares despido

porque quem não precisa de ti não quer senão o teu voto
e tu que te lixes no lixo
porque o trabalho que fizeste toda a vida
é muito mais bem feito por qualquer robô
e ninguém dá por isso se não for feito
por isso és despedido
Assim desfruta a tua liberdade de desempregado
o melhor que puderes
porque és livre e por isso descartável

Está é a mais extraordinária descoberta da sociologia neoliberal
cibernetizada e deves ficar feliz com isso!

Mas não digas a ninguém.
Chora essa tua felicidade sozinho.

Se és velho, nunca vás para uma casa de repouso.
Finge que trabalhas.
Finge que te pagam, mesmo sabendo que nada recebes
Porque dá mais gozo não receber um salário venenoso
Que é teu
Mas irá fortalecer o sistema capitalista
E o igualmente selvagem neoliberalismo…
De que tanto gostas
E em que votaste à toa!

                 
                                          por E. M. de Melo e Castro**



*: Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro (Covilhã, 1932). 
Engenheiro, poeta, ensaísta, escritor e artista plástico português.
 **: Transcrito de “15 Odes Ocas”. Editora Pé de Mosca, 2013.














                                  ● Um pouco de... Paul Gauguin

















               ● Imagens... Vintage.