O namorado. Um tempo...
                   E o poema de Murilo Mendes*

























                                         Retomo uma vez mais o envelhecimento e o amor, dando conta desta circularidade que envolve a humanidade: amamos novos, a idade avança, e o amor transforma-se, desafiando-nos a uma aprendizagem constante do outro. A vida que o amor viveu é sempre outra quando o amor se vive. Não há repetições nem efeitos miméticos, apenas desafios no aconchegarmos-nos ao outro que agora é, e nos enche a alma. Isto, sabido com a idade, nunca está presente nos começos de uma relação, quando apenas o esplendor do agora funciona como ignição.
Justamente nos vem lembrar Murilo Mendes. Trata-se de um poema sobre o óbvio que permanentemente esquecemos: o efémero da aparência física de cada um, e o implícito desejo da sua imutabilidade quando a atração estética é o motor. Se o amor acontece, o encanto não se perde apenas se transforma. ( https://viciodapoesia.com/).


O namorado e o tempo**

O namorado contempla
o corpo da namorada
vê o corpo como está,
não vê como o corpo foi
nem com o corpo será.

Se aquele corpo amanhã
mudar de peso, de forma
mudar de ritmo e de cor,
o namorado, infeliz,
vai sofrer mesmo demais:
não calculou o futuro,
a mulher quebrou o encanto,
ele só vê a mulher
no momento em que a vê.


*: Murilo Monteiro Mendes (1901-1975).
Poeta e prosador brasileiro. (Juiz de Fora, Minas-Gerais).
**: Poema transcrito de “366 poemas que falam de amor”.
 Antologia organizada por Vasco Graça Moura,
Quetzal editores. Lisboa, 2003.
► Imagem: Pintura de Fernando Botero (1932).







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