Ninguém quer pensar fora da caixa.










“ para alguns, essa seja a maior dificuldade
 em ler Literatura,
esse exercício de sair de si mesmo ”


                            Todorov, um crítico literário que nos deixou recentemente, em um de seus livros disse que a literatura está em perigo porque ela não tem poder algum, já que não participa da formação cultural das pessoas, ou, quando participa, participa burocraticamente - o que é uma antítese dela própria.    
Esse pensamento aparentemente pessimista diz respeito a uma imensa comunidade de leitores que, hoje, com a cultura digital, parece ampliado, mas lê cada vez menos Literatura. Sem adentrar na grande discussão a que tal assunto pode levar, seja por uma conjuntura social seja por falta de motivação individual (é uma linha tênue que une ambas as razões), não ler Literatura é perder muitas oportunidades e uma delas, senão a principal, é deixar de conhecer, de colocar-se em contato com a diversidade do humano. (grifo nosso). Ampliando a questão posta por Todorov, a leitura do texto literário deve ser compreendida, também, para além de seus tecidos, que se inserem social e temporalmente em outros discursos, o que exige que adotemos o ponto de vista de outros. E quando nos posicionamos para abrir um livro é exatamente isso o que acontece – e, talvez, para alguns, essa seja a maior dificuldade em ler Literatura, esse exercício de sair de si mesmo, de "pensar fora da caixa".
A experiência de ser um outro.
Nesse sentido, Todorov questiona: “Que melhor introdução à compreensão das paixões e dos comportamentos humanos do que uma imersão na obra dos grandes escritores que se dedicam a essa tarefa há milênios?”. Essa experiência, que se dá pela memória dos discursos e da própria experiência corpórea, se abre para nós quando lemos, quando nos entregamos - sem amarras e censuras - aos braços do outro por cujos olhos passamos a ver o mundo. (...).
Roland Barthes, diz que “A literatura não permite andar, mas permite respirar”.
Justamente porque ela não tem um compromisso instrumental, mas sim jorra sobre nós um sopro de vida. Algo que é muito próprio da literatura é o seu poder de reunir crenças, emoções, imaginação em um saber insubstituível, como diria Antoine Compagnon, sem propor sintetizar a complexidade humana. Ao contrário, ela é um saber de singularidades.
Enquanto grande parte dos programas de televisão (e alguns livros também) reafirma as nossas crenças, os nossos preconceitos, sem nos propor algo novo e nos deixando confortáveis sentados no sofá (que perigo há nisso!), um livro nos desestabiliza (no bom sentido), porque nos faz ir além, porque nos propõe perguntas e, com isso, nos demanda uma ação, um comportamento ativo e a possibilidade de sermos mais sujeitos.

por Gisella Meneguelli
(Doutora em Estudos de Linguagem, mestra em Linguística, 
especialista em Ensino de Língua Portuguesa e 
licenciada em Letras. Universidade Federal Fluminenese).


Fonte do texto ► https://www.greenme.com.br/

Fonte da imagem ► https://www.multirede.com.br/







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