A desordem do mundo. Para ser entendida. 
                            Precisa ser classificada.









Compartilha-se com vocês este texto (editado) da entrevista do sociólogo Domenico de Mais (autor de 'Alfabeto da Sociedade Desorientada') feita ao jornalista Ubiratan Brasil (‘O Estado de São Paulo’) em 9 de abril de 2017 transcrita no blog http://gilvanmelo.blogspot.com.br/. 





                          (...). pouquíssimas vezes na história humana o trabalho, a riqueza, o poder, o saber, as oportunidades e a proteção social mudaram simultaneamente. Quando isso acontece, ficamos frente a uma verdadeira descontinuidade de época, uma revolução social. Desde a 2ª Guerra Mundial, o salto mais recente nesse sentido coincidiu com a rápida transição para uma sociedade pós-industrial, dominada pela produção de bens não materiais: serviços, informações, símbolos, valores e estética. Todas as sociedades do passado nasceram tendo por base um sólido modelo teórico preexistente:

-a democracia de Péricles baseou-se no pensamento de Protágoras, Zenão e Anaxágoras;
-o sacro Império Romano, nos Evangelhos e nos textos dos Pais da Igreja;
-os Estados islâmicos, no Alcorão;
-a democracia americana, no Iluminismo de Voltaire, Diderot, Franklin e Jefferson;
-os Estados-Nação do século 19, nas obras de Smith, Montesquieu e Tocqueville;
-a socialdemocracia e o welfare, nas teses e experimentações de Owen e Bernstein;
-a União Soviética, no pensamento de Marx, Engels e Lenin.

Apenas a sociedade atual nasceu de tentativa e erro, sem o roteiro de um modelo ideal. Toda nossa desorientação e sensação de crise derivam da falta de um modelo condutor. Nossa atual desorientação envolve as esferas econômicas, familiar, política, sexual, cultural.
Quem fica desorientado entra em crise, e quem está em crise para de projetar o próprio futuro.
Mas, se não planejamos nosso futuro, outros o farão por nós, não em função de nossos interesses, mas dos próprios.
E isso nos desorienta ainda mais

Da civilização mesopotâmica até fins do século 18, por 5 mil anos a sociedade humana esteve condicionada principalmente à agricultura e ao artesanato. O progresso tecnológico influiu de modo determinante em nossa concepção de tempo. Em menos de um século, a expectativa de vida dobrou. Ao mesmo tempo, inventaram-se máquinas para se economizar tempo (telefone, avião, computador), para enriquecer o tempo (o rádio ouvido enquanto se dirige), para estocar o tempo (CD, secretária eletrônica), para programar o tempo (agenda eletrônica). No entanto, se lemos romances do século 19 e os comparamos a nossa vida e a nossa literatura atual, temos a impressão de dispor sempre de menos tempo.

Há 20 anos, quando vim de Roma para o Rio e São Paulo, saí de uma Itália eufórica e encontrei um Brasil deprimido.
Ao fazer a mesma viagem dez anos depois, deixei uma Itália deprimida e encontrei um Brasil eufórico.
Hoje, saio de uma Itália deprimida e encontro um Brasil deprimido.
Isso porque, como já disse, estamos desorientados.

Mas essa desorientação não vai necessariamente durar muito.
É verdade que a atual sociedade pós-industrial é mais complexa que a rural e a industrial; mas também é verdade que os meios disponíveis para decifrá-la, administrá-la e melhorá-la são muito mais poderosos que os de antes. (...).

A falta de um modelo teórico de referência cria um vazio intelectual que alcança todos os governos do planeta. (...). Em todos os países democráticos, em maior ou menor grau, o declínio das ideologias afastou um sustentáculo insubstituível e uma orientação segura para os diversos partidos. Hoje, os aparelhos partidários estão desmantelados em toda parte; os líderes, embora menores e sem carisma, dominam, caprichosos e incontrastáveis; as classes confluíram para um bolo amorfo, com uma progressiva convergência dos programas eleitorais. Quem anuncia seu programa não o faz com base no conteúdo proposto, mas na forma de divulgá-lo na mídia e na web.

(...). Se hoje, por encanto, desaparecessem do planeta os graves problemas da fome, do desemprego, da dívida pública, do racismo e das guerras religiosas, os vários governos não saberiam como e para onde conduzir seus países.

Em nenhuma nação do mundo a elite governante demonstra ter a inteligência adequada
para resolver os problemas que estão a sua porta.
O comunismo perdeu, mas o capitalismo não ganhou.
O comunismo sabia distribuir a riqueza, mas não sabia produzi-la, enquanto o capitalismo sabe produzir a riqueza, sem saber distribuir.

São gastos bilhões na publicidade da comida de nossos gatos, mas faltam financiamentos mínimos para garantir a nossas crianças o direito ao estudo ou à saúde. As oito pessoas mais ricas do mundo possuem uma fortuna equivalente à de metade da humanidade, 3,6 bilhões de pessoas. Todo ano o PIB do planeta cresce de 3% a 5%. Apesar disso, no Brasil, como em grande parte do mundo, não se consegue acabar com a pobreza, a violência, a corrupção e o analfabetismo.

Sobretudo, as elites governantes não conseguem considerar
 a felicidade dos cidadãos como principal objetivo
de todo bom governo.  



Imagem: Igor Morksi (http://www.zupi.com.br/).









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