Livro é instrumento.

















                                                      Já comentei isso antes, mas direi novamente: para o escritor, todo livro é um instrumento, não é um ídolo a ser disposto e venerado num altar. Não é uma joia rara a ser tratada com mais carinho que um bebê recém nascido. Parece estranho? Calma, vou me explicar. No primeiro mês que morei com Hilda Hilst*, Ela me passou um livro do Thomas Merton. Um no qual, entre outros artigos, ele analisava o romance “O Doutor Jivago”, de Boris Pasternak e me pediu que o lesse. Dias depois, quando o devolvi, ela o folheou e me deu uma bronca.
- Mas você não leu nada!
Fiquei espantado: - Ué, claro que li!!. 
E então lhe mostrei minhas anotações, com diversos trechos copiados, os quais ainda guardo comigo. Ela não ficou satisfeita:
- Mas se você não sublinhar e rabiscar o livro, como vou saber quais trechos lhe chamaram a atenção? Vou ter de pegar seu caderninho? Tem de rabiscar!
Fiquei mais espantado ainda: - Mas o livro é seu, Hilda!
- E daí? Não vou levá-los para o túmulo comigo. Aliás, até nos seus livros você marca tudo com uma timidez esquisita. Tá com medo do livro? O livro é seu, não é de nenhuma biblioteca.
E, para me mostrar o quanto ela estava se lixando para os pudores de outros leitores, devolveu meu exemplar d’O Cânone Ocidental, de Harold Bloom, que ela não apenas havia sublinhado de cabo a rabo, mas até mesmo enchido de anotações nas bordas.
- Olha só. Disse. Agora você pode folhear seu livro, voltar aqui e discutir comigo os trechos que marquei que também lhe interessam. E você deve marcar para si mesmo todos os livros que lê. Seu livro é uma ferramenta para você consultar sempre que precisar. Ou você tem memória de elefante para tudo o que lê? Eu não tenho.
- Tá certo.
- Só uma coisa… tornou ela, em voz baixa, como quem pretende contar um segredo. 
- Sublinhe, rabisque, inclusive os meus. Mas, se algum dia emprestar seus livros para um idiota, para um atoleimado, não lhe diga nada disso. Diga que seus livros são sagrados e que só você pode rabiscá-los.
Eu ri: - Entendi.

                          Vivendo, lendo, sublinhando, relendo e aprendendo.


► Por Yuri Vieira (http://blogdo.yurivieira.com/)
► Fonte da imagem: https://br.fotolia.com/

*: Poeta, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. 
Considerada como uma das maiores escritoras em língua
portuguesa do século XX.






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