O brasileiro ... binário.








 “Liberdade não é poder escolher entre preto e branco
mas, sim abominar este tipo de proposta de escolha”
(Thodor Adorno. Filósofo alemão).






(...).
● Você pode criticar a atuação violenta da polícia militar em uma operação realizada em uma comunidade pobre, denunciar o envolvimento de policiais em chacinas e milícias e afirmar que sua formação precisar ser alterada e sua estrutura desmilitarizada. E isso não significa que está defendendo o assassinato de trabalhadores da segurança pública, nem que acredita que a polícia não deva existir.

● Você pode criticar Donald Trump ou mesmo a política internacional intervencionista dos Estados Unidos sem que, para isso, precise abraçar o açougueiro e ditador sírio Bashar al-Assad ou mesmo o presidente russo Vladimir Putin, que não leva muito a sério a dignidade humana.
● Você pode afirmar que houve avanços em áreas como educação e saúde em Cuba e, ao mesmo tempo, reconhecer a violência com a qual o regime trata seus opositores ou as graves limitações impostas à liberdade de expressão.
● Você pode ser crítico a uma parte da elite venezuelana e seu tosco comportamento golpista e, ao mesmo tempo, criticar o governo local e seu comportamento autoritário e antidemocrático.
● Você pode adorar muita coisa nos Estados Unidos, da música à produção intelectual, passando pelas pessoas e cidades, e ser crítico às políticas de seu governo ou à ideologia de parte de sua elite econômica.
● Você pode afirmar que há excessos, injustiças e sinais de partidarismo em operações de combate à corrupção sem dizer que  “caixa 2”* é normal e que os partidos envolvidos não cometeram nenhum crime.
● Você pode. Mas talvez não faça isso.

□ Porque defenda um mundo melhor para os seus, mas não para o mundo.
□ Porque não consegue sentir empatia por quem pense diferente, tenha outra cor de pele ou uma orientação sexual que não é igual à sua.
□ Porque acha que o adversário é um inimigo.
□ Porque acredite que mais importante que construir pontes é executar vinganças.
□ Porque chama de ''verdade'' só aquilo com a qual concorda e de ''mentira'' tudo do qual discorda. E, com base nisso, cria sua noção de ''bem'' e de ''mal'', excluindo-se sempre deste último. E, a partir daí, elege seus ''heróis'' e ''vilões''. E vai à guerra, que considera santa, para matar ou morrer.

Nutro certa inveja por pessoas que demonstram um pensamento binomial. Para eles, a vida é tão simples! É A ou Z – e só. Não existe outra coisa entre um polo e outro, nenhuma área cinzenta, nenhuma dúvida, nada. Enfim, para elas o mundo não é complexo (grifo nosso). As pessoas idiotas é que tentam turvar aquilo que é certo, confundindo os ''homens e mulheres de bem'' ou os ''revolucionários''.

Daí, para a vida fazer sentido, dizem que todos têm que abraçar uma ideia e simplificar o mundo ao máximo. Quem não consegue fazer isso, sem problema, eles dão uma mãozinha, taxando você de ''isentão''. Ou pior. Se você não é hétero é homo. Defende  políticas para os mais pobres, não pode ter um smartphone. Ou apoia a campanha de terra arrasada do governo contra as drogas ou é um usuário de crack que rouba a mãe pelo vício. Acha que um partido político representa toda a maldade no mundo ou acredita que da boca de seus líderes fluam rios de leite e mel.
Nós não estamos em uma guerra. Ou pelo menos não deveríamos estar.
Escrevi há algum tempo que deveria haver um círculo do inferno especialmente reservado para os que não aceitam dialogar com quem pensa diferente.

O mesmo vale para acredite que o mundo é dividido em um grande bem contra o mal.

Discordo visceralmente de muitos textos que leio, mas nem por isso acho que eles não tenham o direito de vir a público (a menos que tenham sido produzidas para incitar a violência ou difamar outras pessoas). Pelo contrário, discordo, mas defendo o direito de que seja dito.
A saída para contrapor uma voz não é o silêncio, mas sim outra voz (o fato de pessoas que defendem um ponto de vista semelhante ao meu não ter conseguido construir uma alternativa – ainda – diz tanto sobre a nossa incapacidade de comunicação quanto sobre o poder de fato do outro).
Muitos simplesmente repetem mantras que leem na internet, ouvem em bares ou veem na igreja e não param para pensar se concordam ou não realmente com aquilo. É um Fla-Flu**, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização, tornando esse outro uma coisa sem sentimentos. Isso é muito útil durante eleições polarizadas, mas péssimo para o cotidiano.

É mais fácil pensar de forma binária. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. 
Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos.
As relações que se estabelecem no ''lado de fora'' da internet ainda são uma das melhores formas de rompermos a limitação do contato com a diferença criada pelos algoritmos das redes sociais - que mostra em nossas timelines aquilo que gostaríamos de ver, tornando o mundo um lugar mais quentinho. O problema é que bolhas digitais matam, aos poucos, a empatia.
E a falta de empatia faz com que o pedido de socorro de grupos sociais que não são nossos familiares ou amigos, aos poucos, se torne tão irrelevante quanto um pedido de amizade de um desconhecido online.
''Ah, mas o 'outro lado' não faria o mesmo por mim'', afirmam alguns.
Mas, daí, fica a pergunta:

Você forma sua opinião e constrói seus princípios através de empatia,
vivência, leitura e reflexão ou é um grande vazio que apenas
 responde aos estímulos dos outros? ...
  

Este texto (editado) foi feito pelo jornalista brasileiro Leonardo Moretti Sakamoto (1977). Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e professor de Jornalismo na PUC (São Paulo). Publicado em http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/ .

*: recursos financeiros não contabilizados aos 
órgãos de fiscalização governamentais.
                                                                                                                           **: Clubes de futebol brasileiros.










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