A implosão da mentira.



                    Este é um poema do escritor e poeta brasileiro Affonso Romano de Sant’Anna (1937). Foi publicado, em página inteira, no Jornal do Brasil’ em sete de julho de 1981. Era, uma crítica direta e lúcida ao período final do já decadente governo da época. Que existia. Fruto do golpe politico realizado nos anos sessenta. Repito. 1981. Século XX.
Naquele ano. Para recordação de alguns. E conhecimento de outros. 
A cultura nacional perdia Glauber Rocha e Mazzaroppi. Surgia o canal de TV ‘SBT’ do Silvio Santos. Uma novela mostrando a vida dos imigrantes em São Paulo era sucesso (“Os Imigrantes”). Grêmio foi o grande campeão brasileiro. Comandado por Zico, o Flamengo conquistava a Libertadores e o Mundial Interclubes em Tóquio. Não foi fácil suportá-los naquele ano. A aristocrata Diana Spencer virava ‘Lady Di’.
Mas, o ano de 1981 foi marcado pelos atentados a Ronald Reagan, o Papa João Paulo II e ao egípcio Anwar Sadat que buscava estabelecer a paz com Israel. 
Aqui no Brasil. Houve o atentado ao ‘’Riocentro’ durante um show na véspera do dia 1º de maio.

Para quem (como eu) que insisti em continuar vivo. Vivente neste planeta. Parafraseando a artista paulista Regina Braga viajando entre o “já foi”  e o que “não será”.  
Lendo-se o poema do Affonso Romano. Constata-se: Nada “já foi”.
Ontem. A mentira da era dos golpistas decadentes, armados, com fuzis dos anos sessenta. 
Hoje. A mentira é dos golpistas decadentes, armados, com o direito do voto conquistado nos anos oitenta (“Direta Já”. Lembram?).
Eles continuam mentindo. "Mentem no passado. E no presente passam a mentira a limpo. E no futuro mentem novamente". Na Roma antiga tinha um Senador chamado Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) que disse: "Até quando pretendem abusar da nossa paciência"?. ... Sempre. Chega de conversa. Leiam o poema do Affonso Romano de Sant'Anna que segue 

                                                                    ● Fragmento I



Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.



Fragmento II



Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial?mente,
mente partidária?mente,
mente incivil?mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.

E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
- diária/mente.




Fragmento III



Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.




Fragmento IV




Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.
Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.




Fragmento V



Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.


                                                                                 ”







Um comentário:

  1. Belíssimo poema. Parabéns Bloque A Jurubeba Cultural!!!

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