A serpente. 

(Cindy Crawford. Foto: Annie Leibowitz (1993).


                                                   “ Para alguns, o nome da serpente que nos roubou do Paraíso era Ordem. Organização social. Não havia mais integração. A matéria e o espírito se separavam, e o ser humano não era mais inteiro. Era impelido por ambição, cobiça, ciúme, medo... O conflito tornou-se a condição da sua vida, o indivíduo contra seu vizinho, contra a sociedade, contra ele mesmo. Como tornar o Homem livre outra vez? Como voltar ao Éden? Destruindo o que destruiu sua liberdade. A ordem.
Para um socialista, ao contrário, organização social é o que salva o ser humano da sua pior natureza. Evita o conflito e traz a harmonia. Portanto, Ordem não é um bom nome para a serpente. Já para um fascista, só a submissão a uma ideia e a uma autoridade integradoras resgata a felicidade. Portanto, Ordem também é elogio, não nome de serpente. E para um liberal, se a serpente nos tirou do Paraíso mas inaugurou o ser humano competitivo, então viva ela, seja qual for o seu nome.
Que nome merece a serpente?
Acho que um bom nome seria Precisão. Foi quando desenvolveu o dedão opositor e se tornou capaz de, primeiro, catar pulgas com mais eficiência e eventualmente esgoelar o próximo e fabricar e empunhar implementos sem deixar cair – enfim, quando se tornou preciso – que o ser humano começou a sair do Paraíso. Acabou a inabilidade digital, que nos igualava aos outros animais e nos impedia gestos especulativos, como o de segurar um cristal contra o sol e ficar filosofando sobre a luz decomposta em vez de se integrar com a natureza como um bom bicho.
O dedão opositor está nas origens do arco e flecha, daí para o zíper e as centrais nucleares foi um pulo – no abismo. A nossa queda começou pelo polegar.
Alguém desesperado com as seguidas derrotas das suas convicções socialistas pelo reacionarismo crescente pode se consolar com a ideia de que a reação é apenas uma ilusão ótica, um rio que parece correr para trás quando todos os rios correm sempre para o mar, que é a redenção da humanidade e a liberdade ilimitada. Um consolo para desesperados de todas as épocas.  
      
Por: Luís Fernando Verissimo
(escritor, humorista, cartunista, tradutor, autor de teatro,
                tocador de saxofone... Brasileiro),










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