Quero ler em papel.











                   “ A elegia fúnebre para o papel terá que esperar. Os maus presságios sobre a morte iminente do livro impresso, esse veículo de ideias que mudou a história da humanidade, o mais poderoso objeto do nosso tempo, conforme clamam alguns, não se cumpriram. 
O e-book não o enterra, pelo menos por enquanto. Persiste o cheiro de papel, de tinta, de cauda; o totem continua vivo, meio abalado, mas ainda se agita. Por mais que a imprensa tradicional e os sites falemos do que é novidade, do que está por chegar, do último gadget tecnológico, as estatísticas estão aí, com toda a sua teimosia. (...). 
O enterro antecipado do livro impresso ganhou forma na virada do século. “O livro está morto, longa vida ao livro” (...) 
O fetichismo, a beleza do objeto, esse prazer tão datado de percorrer a livraria, as livrarias. (...). A resistência do papel também se explica, talvez, por estarmos apenas no começo da revolução digital.  (...). A televisão não matou o rádio. O papiro e o pergaminho coexistiram durante séculos no antigo mundo mediterrâneo. Ao final, tudo aponta para uma coexistência de formatos, para um ecossistema no qual o audi livro agora irrompe com força. O papel aloja melhor o universo fechado prometido por um grande romance; o tablet (que pouco a pouco vai acuando o livro de bolso) é porta de entrada cada vez mais habitual para a literatura de gênero, romântica, erótica, para os auto editados.


A ameaça para o livro impresso não é o livro eletrônico. 
Os concorrentes viajam no celular, e o problema é a mudança de hábitos.
Nos ônibus e no metrô, vemos pouca gente lendo um livro. 

                                                O humano viaja com a cabeça baixa, olhando sua tela, visualizando as fotos pela enésima vez, compartilhando-as, comentando-as, trocando mensagens, interagindo. 
Assim se sente acompanhado, acolhido a cada instante, assim se vacina a golpes de teclado contra a (cedo ou tarde inescapável?) solidão. Instagram, Twitter, Facebook. Essas plataformas é que vieram a ocupar o tempo livre (e o de trabalho). Uma das vítimas colaterais é o livro, o velho amigo. (...). Vamos a toda pressa, de um lado para o outro. A leitura repousada e atenta casa cada vez menos com os novos ritmos. A complexidade de certo tipo de vida contemporânea, a do urbanita hiper-conectado, a velocidade a que vivemos como consequência da agilização das comunicações, que multiplicam a vida social, a troca de ideias (e de bobagens?), entre muitas outras coisas, deixaram um espaço menor para o recolhimento que um livro exige. 
Mas esse velho objeto, coisas da vida, continua vivo. 
Afinal de contas, como dizem que dizia Groucho Marx (e embora haja sérias dúvidas sobre a autoria da frase, ela sem dúvida exala o odor do seu charuto): 

                                            “Fora o cachorro, o livro é o melhor amigo do homem. 
                                                 E dentro do cachorro é escuro demais para ler”.


          Texto editado de Joseba Elola (Jornalista espanhol).


► Foto: André Kértesz. Ilustração: Steve Cutts. 








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