Uma parte... Outra parte...


Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira.
Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta.
Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem; outra parte, linguagem.
Traduzir-se uma parte na outra parte
- que é uma questão de vida ou morte –
                         Será arte.

                                               (Ferreira Gullar)*.


  *: “Traduzir-se”. Texto editado de 
José Ribamar Ferreira (1930). Escritor, poeta, crítico de 
arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro. 








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