Literatura ... 
E por que não ler a nossa?*





“Os leitores brasileiros que leem a literatura de fora
sem ao menos ter conhecimento da nossa.”



                                            “ Uma coisa que sempre me instigou e que cada vez mais tem me instigado é o fascínio da grande massa de leitores brasileiros pela literatura estrangeira que, na maioria das vezes, sempre se encontra na lista dos livros mais vendidos no país. (...) nos sobram os  títulos nacionais, encontram-se na sua grande maioria os dito cujos livros de autoajuda ou de entretenimento, geralmente assinados por padres, pastores, espíritas, celebridades ou empresários do mundo dos negócios ou do show biz, que, na maioria das vezes, contratam serviços de ‘ghost writers’ para escreverem os seus próprios livros (que nem próprios deles são de verdade, no sentido autoral da coisa).  

Sabemos que além da baixa escolaridade brasileira, vergonhosamente em penúltimo lugar no ranking mundial da educação, e da literatura nunca ter sido um hábito tradicionalmente cultivado no país, paradoxalmente, o mercado editorial brasileiro vem expandindo-se, e a venda de livros também. Mas o que a massa que fomenta lucros ao mercado editorial brasileiro tem consumido? Literatura estrangeira, brasileira ou de autoajuda? Eu diria que os três, com a diferença de que há algum tempo o Brasil vem cultuando cada vez mais a literatura estrangeira somada à relacionada, sobretudo, de entretenimento e/ou de fantasia; as famosas trilogias ilustradas por realidades paralelas que se dissipam, na verdade, da nossa. Mundos imaginários habitados por monstros, vampiros, gladiadores, bruxas, duendes, zumbis e seres das mais diversas amplitudes. Ou mesmo por temas medíocres, pueris e supérfluos, ou carregados por algum tipo de ascensão ao gênero autoajuda como pelo sensacionalismo, ou quando simplesmente evidencia-se na capa um estrangeirismo sedutor, e frisando bem ali acima ou abaixo do título: “fenômeno de vendas”. O que já desperta o interesse de alguns por aquela leitura. Livros, na maioria das vezes, sejamos honestos, ausentes de proposta alguma, relacionada ao exercício da reflexão e ampliação do conhecimento, senão ao mero serviço do que o próprio gênero se auto define e, é claro, de, possivelmente, os de ficção vir a ser adaptados ao cinema ou na TV, em grandes ou médias produções norte-americanas.

Mas o que eu quero salientar é sobre literatura. Literatura no sentido mais sumário, mais essencial e etimológico que cerne a palavra. Até porque já se houve um tempo em que esta mesma dita cuja grande arte detinha-se de um papel extremamente importante na história da humanidade influenciando a cultura, a política, a psicologia, o comportamento, a contracultura, as individualidades de cada um e as outras demais artes. O que aconteceu com essa literatura? Diluiu-se? Execrou-se? Não, ela ainda existe e mantem-se de pé, abastecida por verdadeiros escritores, seja para fins estéticos que enriquecerão a arte ou como forma de fazer com que nós entendamos o mundo a nossa volta ou a nós mesmos. 

Mas o grande problema especificadamente em nosso país, relacionado a ela, está na precariedade da educação, e no culto pelo “estrangeirismo pop” da massa — termo que criei para este nicho de literatura que vende, vende e vende muito, e feito água (...).

O que eu quero tentar argumentar aqui é a falta de conhecimento que os brasileiros têm sobre a nossa literatura, tão rica, plural e criativa, substancialmente significativa em nossa cultura, e que vem ganhando, nos últimos anos, novos patamares, expandindo suas fronteiras pelo mundo. É notório que cada vez mais títulos nacionais estejam sendo exportados em outros territórios, sobretudo na Europa. E de autores jovens, contemporâneos. O que eu acho ótimo. (...).  

Não tenho nada contra aos autores estrangeiros, pelo contrário, tenho um enorme respeito e total consciência de que “os grandes mestres” são originários de outros países, e que, inclusive, influenciaram nossos grandes mestres brasileiros (...). Não que a verdadeira arte não possa vender nem que seja pecado tal vender muito. Pelo contrário, a arte não só precisa como necessita ser consumida e impulsionada pelo público. Mas falo que a preocupação maior nesse mercado específico (dos best sellers só pra frisar) é estritamente nas vendas e, sobretudo, nos lucros que o produto, neste caso, o livro, irá gerar. E os editores sabem que obterão. Porque existe um marketing envolvido por trás do lançamento de um determinado livro, e todos os artifícios que a indústria cultural se propõe a fazer para que efetivamente os resultados aconteçam, e o público seja levado à inocência hipnótica do consumo. (...). 

Quanto à qualidade, na maioria das vezes, fica em segundo plano. Na indústria cultural é basicamente assim: se não vende, não presta, entendem? Quanto à arte de nada ganha. E infelizmente, muitos editores veem a literatura desta forma, e editores que pertencem a grandes casas editoriais do país. Fechando as portas, muitas vezes, a grandes talentos, simplesmente por suas obras serem 
“literárias demais”. ”

*: Ensaio escrito pelo jornalista Márwio Câmara publicado em http://homoliteratus.com/







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