A literatura ... 
e Dylan.



                                           “ Confundem-se as estradas. Mas Bob Dylan caminhou tanto na mesma estrada que merece que dela se diga o nome. A enigmática estrada da Literatura não foi a estrada de Dylan. Porque há uma estrada da Literatura: faz-se escrevendo para o papel, para a publicação em páginas, para a emergência das palavras numa folha de papel, criando tessituras dramáticas que só existem nessa forma autônoma e só nessa forma específica, de papel e letras, geram o mistério de um inexplicável tumulto emocional. 
Alfabeto e lábios imóveis, um par de nervosos olhos que lê, são essas as loucas ferramentas dessa nação. 
A Literatura é uma imensa montanha com 25 séculos e tem uma tradição – ó raio de palavra que me saíste descomandada e ainda me vais perder! A arte de Dylan é feita de som, com fúria ou sem fúria. A arte pela qual lhe deram, hoje, o Nobel é feita do silêncio íntimo de uma página de papel. Mesmo os silêncios da música de Dylan, na tradição de todos os silêncios da música, são distintos do silêncio da palavra cativa do papel. 
E é essa diferença entre os silêncios que faz a grandiosidade da tradição de tantas artes. 
São diferentes, mas se as chamarmos pelo nome, elas vêm. 
Procuram o mesmo instante, têm a mesma aspiração de sublime ou de caos, uma danada vontade de beleza, destruição e eternidade, mas são diferentes: uma, a Música; outra, a Literatura; outra, a Pintura. Cada uma com o seu silêncio, nem o silêncio da Arquitetura rima com os silêncios das outras. Dylan escreveu. Escreveu contra a morte, contra o esquecimento, como todos os escritores, Mas escreveu numa barca de Caronte de cordas e percussão, de graves e agudos. A épica montanha que se chama Literatura, do alto dos seus 25 séculos, dispersa em epopeias ou elegias, lendas e narrativas, romances e haikus, odes ou epigramas, tem outra identidade. 
E não me venham com a conversa de que eu estou a levantar barreiras ou compartimentos estanques. Não é dizendo que a Literatura é o que não é, que se lhe renova a grandeza. 
Ou, nome que parece que foi usado, a universalidade.

         Por Manuel S. Fonseca (Escritor português).











Nenhum comentário:

Postar um comentário