Literatura para quê (m).





O texto parece ser um pouco longo, mas vale o esforço. Foi criado por Luigi Ricciardi (1982) de Londrina (Paraná). Ele é mestre em Estudos Literários da Universidade Estadual de Maringá e foi publicado no blog ‘Obvious’ (http://obviousmag.org/). Acredita-se no poder de transformação da literatura.  Afinal, como ele diz: “A leitura nos leva ao conhecimento, o conhecimento leva à reflexão, e a reflexão pode levar a mudanças.” Ela (a literatura) mostra o ser humano. Leiam.


“A literatura é um bem de todos e para todos, 
não importando classe social, orientação sexual,
opinião política, profissão, crença ou qualquer
outra coisa que nos diferencie.”


                                               A ditadura da imagem parece ter colocado a literatura e a palavra no banco de reservas e a leitura de obras literárias é considerada um exercício cansativo e sem serventia alguma para coisas deveras importantes. “Afinal, para que serve a literatura?”  perguntou-me uma vez um professor de outra disciplina. Respondi que não servia para nada. A palavra ocupou durante muitos séculos o trono do acesso ao conhecimento. Embora poucas pessoas tivessem acesso à leitura, a figura do livro sempre foi exaltada. Hoje em dia, vive-se em uma sociedade quase que completamente imagética. A palavra parece ter perdido importância em relação à imagem, seja ela fotográfica ou cinematográfica. Há uma frase que corrobora essa afirmação: “uma imagem vale mais que mil palavras”. Dentro das próprias redes sociais podemos ver isso: instagram e tumblr são quase que completamente imagéticos. Nos posts de blogs, sites ou facebook, os textos parecem ter credibilidade somente se uma foto resumir a ideia do texto.
Revoltada com essa ditadura da imagem, como se ela realmente valesse muito mais que um grande punhado de palavras, uma personagem do livro ‘Volkswagen blues’ (ainda sem tradução para o português) do canadense Jacques Poulin pixou um muro com a seguinte frase: “uma palavra vale mais que mil imagens”. Essa personagem, de nome Pitsémine, acreditava que a palavra, sob a forma artística da literatura, era o grande exemplo de expressividade humana e o caminho para se conhecer a história e refletir sobre a própria existência e estruturas sociais.
Evidentemente que deixar apenas a literatura como responsável por essas reflexões é deveras injusto, além de ser um fardo dificílimo de ser carregado sozinho. Não dá para ser radical a tal ponto, mas é fato de que a literatura é vista com olhares desconfiados pelas pessoas em geral, embora, em números, possamos ver que hoje em dia se lê muito mais do que nas últimas décadas do século passado. 

Aqui não falarei sobre qualidade de leitura, literatura enquanto entretenimento x literatura arte nem sobre gêneros procurados pelos leitores. É apenas uma reflexão sucinta sobre a função da literatura e leitura.
Tolo que já fui, acreditei em certo momento da vida que a literatura separava um mundo de pessoas “iluminadas” de um mundo de acéfalos. Acreditei piamente que a literatura era a fonte única do conhecimento e quem não lia era descartável socialmente. Fui radical, confesso, mas talvez ainda haja muita verdade nesse pensamento reducionista, embora muita gente use desse conhecimento adquirido para coisas nem tão “iluminado” assim.
Porém, talvez ingenuamente, acredito no poder de transformação da literatura. A leitura nos leva ao conhecimento, o conhecimento leva à reflexão, e a reflexão pode levar a mudanças. A literatura, disse uma vez um estudioso brasileiro do existencialismo cujo nome não me vem agora à mente, é a arte que mais mostra o ser humano agindo, vivendo seu cotidiano e interagindo. Talvez seja a arte que mais possa mostrar o íntimo humano, os pensamentos, os sofrimentos, as injustiças, os sonhos, os amores, as frustrações, entre outros.
A literatura talvez não possa sozinha mudar o mundo, afinal, como diz Umberto Eco, ela não pode ser pão para aqueles que têm fome. Mas se esse pão for metafórico, a literatura pode sim colaborar indiretamente para mudanças substanciais, individual e coletivamente. Bob Dylan provavelmente não teria saído de casa e começado a compor se não tivesse lido o ‘On the road’ do Jack Kerouac. Talvez demorássemos mais para começar a refletir sobre a questão animal e a caça desenfreada se Herman Melville não nos tivesse presenteado com o ‘Moby Dick’. Talvez não tivéssemos uma língua portuguesa como a temos hoje se Camões não nos desse ‘Os lusíadas’. Talvez não refletíssemos sobre preconceito e religiosidade se Shakespeare não tivesse escrito ‘O mercador de Veneza’. Se Édipo não tivesse se casado com Jocasta, sua mãe, talvez Freud não tivesse entendido e nomeado o complexo de Édipo. Isso tudo talvez, mas são tantos exemplos de talvez que poderíamos dar que eu começo a duvidar desse talvez e começo a colocar uma força abstrata na literatura.
Abstrato (a) talvez seja o termo mais indicado para a literatura mesmo. É uma força que não se pode ver, pois sua influência é indireta e não tem impacto direto e repentino. 
São anos de leituras e reflexões que formam um cidadão. Talvez por esse efeito a longo prazo é que a literatura, assim como tantas outras artes e ciências humanas, é desprezada. Em geral, não há impacto direto e visível na vida das pessoas como uma pesquisa no campo das ciências sociais ou da história. Diferentemente de uma pesquisa sobre células tronco, por exemplo, ou sobre o tratamento de uma doença ou ainda sobre a invenção de vacina para a cura de uma doença, pois elas têm impacto direto na população e sociedade. Justamente por não ter esse impacto visível é que todas essas ciências sociais e artes, incluindo aí a literatura, são desprezadas pelos governos e meios acadêmicos.
Uma professora minha da faculdade me contou uma vez que um professor da matemática perguntou a ela, com um tom jocoso, sobre a verdadeira função da literatura. Ela disse que não tinha função alguma. Achei um disparate e me imaginei discutindo com ele tentando dar inúmeros argumentos a favor. Anos mais tarde, um colega de profissão me fez a mesma pergunta. Eu dei a mesma resposta que minha professora havia dado anos antes. Não valia a pena discutir. Um preconceito tão enraizado, de alguém que deveria ser mais lúcido que os demais, não desapareceríamos de uma hora para outra. Meus argumentos tentariam ter impacto direto e instantâneo, e a literatura, como já disse, não tem esse poder. Seu poder é silencioso e demorado. Além de enriquecer o vocabulário, distrair, entreter, a literatura faz com o que o leitor saia da zona de conforto e conheça outras situações, opiniões e vivências. Serve para isso e muito mais. A literatura é um bem de todos e para todos, não importando classe social, orientação sexual, opinião política, profissão, crença ou qualquer outra coisa que nos diferencie. Ela nos educa para a liberdade e criatividade. Literatura é um bem cultural, forma e delimita língua e nação. Ler não é chato, chato é ser burro. (grifo nosso) Se há dificuldade na leitura, insista. Aprenda. Vença. Converse com outros. Discuta. Discorde. A literatura serve para isso, para formar pessoas com opinião, verdadeiros sujeitos pensantes. Cabe a cada um encontrar também um motivo pessoal para ler.












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