A saudade perdoa.

   (foto: Christoph Hessel)


                                                           “ A saudade já é perdão. Sentir saudade é desculpar. Se você vem sentindo saudade é que esqueceu, é que não guardou mágoa, é que superou o ressentimento, é que dispensou a vingança, é que resolveu por dentro, com a quietude da esperança. Quando a saudade chega não adianta mais impor regras e mandar embora. Acabaram o jogo, o blefe e as cláusulas minúsculas. A saudade é um convite irrecusável. É um apelo. É uma passeata de pássaros. Com a saudade, você aceitou a retratação - dita ou o implícita. Saudade revoga prazos, ordens, ditames, censuras. Não tem como exigir mais nada, não tem como reivindicar mudanças. É admitir a volta sem explicação. É admitir o retorno sem contrapartida. Saudade é um golpe de estado. Abole o que foi estabelecido antes. Saudade é o domínio da pele, é a preponderância do cheiro, é a emoção desmontando a hierarquia das palavras. A saudade é recompensa por seguir amando diante das inconstâncias, é a vitória do acertos sobre os defeitos. Saudade é o fim da culpa, é o desejo livre. Saudade é um vontade com juros: abraçar com as pernas, machucar com o beijo. Saudade é serenar o travo, beber o seco. Saudade é se despedir do sofrimento e ficar com a lição da cicatriz. É respeitar a imperfeição, não precisar consertá-la para seguir inteiro. É respeitar a falha, não recorrer às mentiras para corrigi-la. É respeitar a ausência, jamais ocupar a cadeira porque está vazia. Saudade é quando morre a idealização para não morrer o amor. Somente o orgulhoso não é capaz de sentir saudade. O orgulhoso não avança nem anda para trás. O orgulhoso senta em cima do coração. ” 

(Texto de Fabrício Carpinejar
Publicado em http://blogs.oglobo.globo.com/fabricio-carpinejar/)








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