Exaustos. Correndo. Dopados.

            

                                         Nos achamos tão livres como donos de tablets e celulares, vamos a qualquer lugar na internet, lutamos pelas causas mesmo de países do outro lado do planeta, participamos de protestos globais e mal percebemos que criamos uma pós-submissão. Ou um tipo mais perigoso e insidioso de submissão. 
Temos nos esforçado livremente e com grande afinco para alcançar a meta de trabalhar  vinte e quatro horas por sete dias da semana. Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcança em qualquer lugar, a qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. Já não há espaço de trabalho e espaço de lazer, não há nem mesmo casa. Tudo se confunde. 
A internet foi usada para borrar as fronteiras também do mundo interno, que agora é um fora. Estamos sempre, de algum modo, trabalhando, fazendo networking, debatendo (ou brigando), intervindo, tentando não perder nada, principalmente a notícia ordinária.
Consumimos-nos animadamente, ao ritmo de emoticons
E, assim, perdemos só a alma. 

E alcançamos uma façanha inédita: ser senhor e escravo ao mesmo tempo. 
Como na época da aceleração os anos já não começam nem terminam, apenas se emendam (...). Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. 
E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, 
porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época. 

E já percebemos que essa condição humana um corpo humano não aguenta. 
O corpo então virou um atrapalho, um apêndice incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não humana. 
Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. 
Porque só dopados para continuar exaustos-e-correndo. Pelo menos até conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema é que o corpo não é um outro, o corpo é o que chamamos de eu. O corpo não é limite, mas a própria condição. 
O corpo é.


                                                   Eliane Brum (escritora, repórter e documentarista brasileira).


Imagem: Mark Kostabi (1960). Artista estadunidense (Califórnia).










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