Que país é este?























Uma coisa é um país, outra um ajuntamento.
Uma coisa é um país, outra um regimento.
Uma coisa é um país, outra o confinamento.
Mas já soube datas, guerras, estátuas  usei caderno "Avante"
       e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um "futuro radioso"
e éramos maiores em tudo - discursando rios e pretensão.
              Uma coisa é um país, outra um fingimento.
              Uma coisa é um país, outra um monumento.
              Uma coisa é um país, outra o aviltamento.
(...).
Há 500 anos caçamos índios e operários,
há 500 anos queimamos árvores e hereges,
há 500 anos estupramos livros e mulheres,
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos: que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia, que São Jorge é que é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe, que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos, quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama ou quem tem padrinho vivo
                      não morre nunca pagão.

Há 500 anos propalamos:  este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca, mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.

Há 500 anos somos raposas verdes colhendo uvas com os olhos,
semeamos promessa e vento com tempestades na boca,
sonhamos a paz da Suécia com suíças militares,
vendemos siris na estrada e papagaios em Haia,
senzalamos casas-grandes e sobradamos mocambos,
bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama,

a polícia nos dispersa e o futebol nos conclama,
cantamos salve-rainhas e salve-se quem puder,
pois Jesus Cristo nos mata num carnaval de mulatas.


                                          Affonso Romano de Sant'Anna (1937. Escritor brasileiro).




(Publicado no livro: “Que país é este? e outros poemas” (1980).










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