Ler.

“A leitura é uma aventura emocional, intelectual e lúdica.



                                         




             “A primeira coisa que me ocorre é que devemos professores e escritores, parar de falar em criar o hábito de leitura. Hábito é escovar os dentes, coisas assim, meio mecânicas, que se faz sem pensar. Se a leitura fosse um hábito, tanto fazia ler a revista  Caras ou Júlio Cortázar, bula de remédio ou Stendhal, Paulo Coelho ou Tchekhov. A leitura é uma aventura emocional, intelectual e lúdica. O que devemos criar é o gosto pela leitura. As crianças precisam descobrir que os livros são divertidos, que mexem com nossa cabeça e nossas emoções mais profundas. Mas atenção: não todos os livros. Há muitos livros chatos, medíocres, pernósticos, metidos. Acho que não se pode falar do livro como algo sagrado, o livro em maiúscula. O aluno tem de ter liberdade de não gostar e de criticar. Não interessa se sua crítica está errada. Ele tem de discutir, defender sua opinião contra as opiniões de outros e talvez aí descobrir se está errado ou não.
Cada livro é um indivíduo e assim deve ser tratado. Como cada leitor é um indivíduo também, muitas vezes os santos deles não se cruzarão. Nem todos os livros foram feitos para nós, como dizia Borges. Um livro que eu considero maravilhoso pode ser uma desgraça para outra pessoa. O leitor tem de encontrar os seus livros.
Os professores precisam levar em conta sempre essa diversidade. Não adianta dizer que um livro é importante, é profundo, é sei lá o quê. Pode não me dizer nada, não é? E esse não me dizer nada pode ser por não bater com meu temperamento ou eu não estar na idade intelectual certa pra ele. O gosto pela leitura é feito por contágio. Se topamos com um livro que amamos ou nos desafia, pronto, estamos fisgados. Enfim, o que se chama leitura obrigatória na escola me parece um erro imenso, nos anos de formação. Esse erro é maior ainda quando o livro tem a concorrência da televisão, da internet e dos videogames, que podem muito bem suprir nossa ânsia por ficção – e, pior, pode destruir nossa imaginação e incentivar a tendência que a maioria de nós tem de se acomodar.

(Texto foi produzido pelo escritor Ernani Ssó e publicado em: http://cartunistasolda.com.br/).



Imagem de Joseph Dawson (1976).







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