Minha geração já passou.


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Texto produzido por Helio Gurovitz e publicado em

                                                             
                                            “ (...). Não se trata de condenar a terceira idade. É verdade que, com os avanços da medicina, a vida profissional se tornou mais longeva. Nada impede, em princípio, que alguém com mais de 70 anos faça um governo arrojado. Mas não é a ordem natural. Já passou do momento de a turma que participou da redemocratização passar o bastão para os mais jovens. Mas onde estão eles? (...).
A principal característica da geração no poder desde o fim da ditadura é ter mantido o Brasil fora da maior transformação recente na economia moderna: a revolução digital. (grifo nosso) (...). 
Não se trata apenas da inépcia para lidar com aplicativos ou de evitar gafes como o vazamento de mensagens sensíveis de WhatsApp. Todos eles – uns mais, outros menos – têm uma visão de mundo ainda presa à Era Industrial, um fetiche pela produção de bens materiais. Podem até entender abstratamente a globalização. Mas é um aprendizado doloroso. Não percebem por instinto, como qualquer um na casa dos 30 ou 40, a essência da ‘Era do Conhecimento’. (grifo nosso)
O preço que o Brasil paga por isso é enorme. 
Discussões e energia política são dedicadas a proteger fósseis econômicos. Em vez de apostarmos em indústrias de crescimento rápido, com base em tecnologia da informação, continuamos presos  (...). Cadê nossa biotecnologia? Nosso software? 
Para a geração mais antiga, o que importa continua a ser o hardware. Trinta ou quarenta anos atrás, já poderíamos ter investido num modelo de desenvolvimento próximo do Vale do Silício, sustentado em universidades voltadas para o universo digital e tecnológico, em leis e num ambiente de negócios favoráveis ao capital de risco e à propriedade intelectual e numa cultura que valorize a produtividade e a inovação nas empresas de crescimento rápido.
Em vez disso, continuamos devotando energia política aos mesmos paquidermes de sempre: as velhas indústrias automobilística e congêneres, a sempiterna Fiesp e as mesmíssimas centrais sindicais. (grifo nosso) Os raros casos em que o país se destaca na produção tecnológica e disputa liderança de mercados – como aviação de pequeno porte, agronegócio ou exploração de petróleo em águas profundas – são resultado de iniciativas tomadas apesar da nossa política recente, não em virtude dela.
O êxito em cada um desses setores tem sua origem em centros produtores de conhecimento que conseguiram funcionar de modo mais ou menos imune aos humores de Brasília ao longo de décadas (CTA, Embrapa e área de pesquisa e desenvolvimento da Petrobras). Mas eles são muito pouco perto do potencial de crescimento do Brasil, caso houvesse políticas sérias de inovação. 
Tudo isso acontece não apenas porque a geração de FHC* (...),foi incapaz de implantar um projeto de longo prazo que criasse a base necessária para a inovação no país. Acontece também porque as duas gerações posteriores – entre elas a minha – jamais tiveram sucesso em convencê-los a isso. Preferiram (...) uma posição mais cômoda de subordinação e reverência aos ícones da redemocratização, incapazes de compreender instintivamente a revolução digital. 
Por isso, fracassamos. 
Passada a confusão política atual, no dia em que a geração da redemocratização se for, ficará mais claro o verdadeiro desastre que se abateu sobre o país. (grifo nosso) 
Caberá então às gerações futuras correr atrás de um prejuízo que, a cada dia, se revela mais difícil de recuperar. ” 

*:  Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
















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