Como se faz uma mulher.

                          “ Uma das vantagens de ter vários relacionamentos é que a gente aprende a observar as mulheres. Sobretudo as mudanças delas. Quando você as conhece, elas são de um jeito. Anos depois, se tornaram outra coisa, bem melhor. A transformação é intensa entre os 25 e os 35 anos, mas continua depois, profunda e permanentemente. Ao contrário dos homens, que parecem nascer prontos, as mulheres passam a vida em construção. Isso é evidente, por exemplo, no sexo. Meninos caem no mundo tentando confirmar aquilo que sabem ou imaginam saber, enquanto as mulheres precisam descobrir tudo. Sobre o seu corpo. Sobre o seu prazer. Sobre as relações com outros corpos e outras pessoas. Na faculdade, eu me espantava quando as meninas, depois de transar, diziam não saber se haviam gozado. Eu achava impossível, mas era verdade. A sexualidade delas estava sendo descoberta e construída de maneira radical, de forma intensamente pessoal, com poucas ou nenhuma regra. A minha sexualidade, que era igualmente recente, estava definida de antemão: eu só precisava relaxar no papel que me cabia há 10 mil anos. Percebem a diferença? Na ausência de regras sobre a sua intimidade, as mulheres têm espaço para inventar a si mesmas. É um processo intenso que dura a vida inteira e vai muito além do sexo – mas que se nota no sexo de forma espetacular. Aos 20 anos, as mulheres são lindas, mas sabem pouco sobre si mesmas. O sexo reflete essa ignorância. Aos 40 anos, senhoras de si em vários sentidos, o sexo muda. Ganha graus crescentes de liberdade e de profundidade, refletindo o que se passa na vida e na cabeça. Vira algo mais intenso e mais feliz. É assim também com o resto das coisas. As experiências vão se sucedendo – escola, trabalho, amizades, relacionamentos, filhos - e parecem moldar a personalidade feminina de maneira pessoal e direta, reforçando a individualidade. A palavra-chave é flexibilidade, que as mulheres têm mais do que os homens. Por isso há tantas maneiras de ser mulher e apenas um jeito (antigo e gasto) de ser homem, ao qual cada um de nós se adapta do jeito que pode. Muitas relações de casal terminam porque mulheres adultas prosseguem na rota de transformação pessoal que vêm trilhando desde a adolescência, enquanto muitos homens tendem a estacionar no modelão trabalho-casa-filhos. As duas curvas se afastam. Os melhores momentos dos casamentos – ou dos namoros, ou mesmo de relações clandestinas - é quando a gente se torna o veículo da mudança do outro. Com nossa ajuda ou nosso exemplo, pela nossa presença, a parceira ou parceiro vai se gostando mais, crescendo, se achando na vida. Além de ser gratificante, essa sensação une as pessoas. É difícil se afastar de quem foi importante em nossa transformação pessoal. Talvez isso explique por que as mulheres parecem mais apegadas aos relacionamentos e por que vivem um período de luto mais evidente quando as coisas terminam. Quem sentiu na pele a transformação, quem percebe no outro um motor das suas mudanças, valoriza a parceria que tem. Muitos homens não notam que mudaram e nem sabem que o seu equilíbrio pessoal depende da parceira. Descobrem depois, sozinhos, com grande sofrimento e muita raiva. Tendo participado de algumas mudanças femininas, eu só posso agradecer o privilégio. Minha própria vida ficou mais rica e eu mesmo fui forçado a mudar, me adaptar, aprender. Isso não significa que as relações transformadoras vão durar para sempre, mas algo delas fica: a certeza de que somos capazes de tocar a vida dos outros e de ser tocado por ela; a graça de ser cúmplice de um milagre transitório e privado, menor, mas inteiramente engendrado pelo amor. ”

Texto de Ivan Martins publicado em http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/

Imagem: Auguste Toulmouche











Nenhum comentário:

Postar um comentário