Só fica velho quem está vivo, mas como dói…












                                            “  "Você está ficando velho...", já me acostumei a ouvir quando reencontro velhos amigos. Para me defender, uso a frase que está aí no título, e acrescento: "... um dia vocês também vão ficar, na melhor das hipóteses". É bom poder ficar velho num mundo onde tantos morrem cedo, mas como dói...
Tem dia que você já acorda cansado, o corpo moído, com dificuldade de levantar da cama só de pensar no longo dia que tem pela frente. Menos mal. Pior será o dia em que você acordar sem dor nenhuma, sinal de que talvez já tenha passado desta para a melhor, como se dizia antigamente. Os amigos já repararam como nos últimos tempos este assunto, até outro dia escondido das conversas, quase assim como o câncer, agora está sendo tratado abertamente por gente de todas as idades e latitudes sociais?
Colunistas, blogueiros, cronistas, escritores, dramaturgos e cineastas estão se debruçando sobre este tema, geralmente para mostrar que nem é assim tão ruim e dramático perceber que a vida está ficando mais perto do fim do que do começo.
Como lidar com isso?
O último texto que li foi o de Francisco Daudt, publicado na Folha de quarta-feira, sob o singelo título "Velhice". Lá pelas tantas ele tocou num ponto em que me identifiquei: "Isso tudo para dizer que, assim como os monges trapistas, que se sepultam em vida para combater o medo da morte, há pessoas que cultivam a velhice, e se tornam velhas (e não sábias) antes que a idade chegue".
Mulher, filhas e netos vivem pegando no meu pé por causa disso. Desde que cheguei aos 40, ou até antes disso, comecei a assumir o papel de velho e a reclamar do chamado peso dos anos. Antes que os outros falassem, resolvi eu mesmo tratar do assunto, sem esconder o que estava sentindo. (...) Não adianta querer esconder de nós mesmos as trapaças do andar da carruagem da vida. Nem resolve querer inventar outras palavras para dourar a pílula, como reclamou a jornalista e escritora Eliane Brum, citada aqui outro dia, que também trata desta questão em seu livro A Menina Quebrada, na crônica "Me chamem de velha" (página 279). Concordo com o que ela escreveu:


"Sugeri a uma amiga que trocasse a palavra "idosas" por "velhas" em um texto.
E fui informada de que era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela
 escrevia se recusavam a ser chamadas de "velhas": só aceitavam ser "idosas".
Pensei: "roubaram a velhice" (...)."Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, 
mas uma vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice também
 no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso mudasse o significado
 do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de todas,
 "melhor idade". Tenho anunciado a amigos e familiares que, se
 alguém me disser, em um futuro não tão distante, que estou
 na "melhor idade", vou romper meu pacto pessoal de não violência ".


Na mesma bronca, Francisco Daudt encerra assim a sua coluna:  "E "melhor idade" é o cacete! Quem inventou esta idiotice? A velhice foi responsável pelo primeiro palavrão que ouvi na TV, ainda nos anos 80. Roberto D´Ávila entrevistava o editor José Olympio e perguntou-lhe que tal era ser velho. J.O respondeu: "É uma merda". (grifo nosso)
(...). Temos hoje uma parafernália de tratamentos, máquinas e remédios à nossa disposição para adiar a velhice. Com que objetivo? Chegar aos 100 anos? Este não é meu projeto de vida. Já ficaria feliz se chegasse ao último dia podendo fazer o que gosto, sem sentir dores e sem depender de ninguém.
Não tenho pressa nem medo.
Depois de tudo que já passei, costumo dizer que estou no lucro.
Quando este dia chegar, quero apenas apagar os olhos mansamente, sorrindo, levando somente boas lembranças, se possível.
E vida que segue.

              (Ricardo Kotscho)*



*: Jornalista. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos
da imprensa brasileira, nas funções de repórter, repórter especial, editor,
chefe de reportagem, colunista, blogueiro e diretor de jornalismo.
(Ilustração de Marius van Dokkum).










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