O que se vê.
Por trás das lentes.










“Por trás das lentes embaçadas,
vê-se um mundo desfocado,
repleto de verdades únicas e incontestáveis. “






                                            “ Ver o mundo é um ato dicotômico. É necessário trazer de modo latente verdades fundantes - princípios - para, ao receber impulsos, gerar conhecimento. Sendo, portanto, o conhecimento produto tanto do meio externo quanto do egoístico.
Para tanto, não é possível manter embaçadas as lentes que intermedeiam o contato sensorial com a vida, pois é esta a principal característica da ignorância: a perda do contato com a realidade, sobretudo pelo fato de ser preciso ter pontos de vista para julgar, não apenas partindo de um olhar definido sobre os fatos. É preciso lançar os olhos sobre acontecimentos, conhecer as faces de uma mesma verdade e, assim, tirar conclusões analíticas.
Com as lentes embaçadas, isso não é possível.
Faz-se mister dizer isto pelo fato de não existir verdades absolutas, mas verdades que provêm de um mesmo fato, o que demonstra a importância de aferir fontes, buscar contextos e significados para alcançar a racionalização daquilo que se pensa. (...).
É necessário, porém, remover os antolhos que embaçam as lentes e limitam a visão para não dar espaço à ignorância expressa, pois a ignorância é inevitável no que diz respeito à limitação do ser, mas, no que se deseja expor, o ignorante se configura como indivíduo que não quer enxergar, reproduzindo palpites quando, na verdade, não possui domínio do assunto que expõe.
(...). Então se fala na figura do indivíduo que, convenientemente, ignora a realidade por não ser sua. Conhecendo-a, mantém suas convicções e brados porque, possuindo as lentes cristalinas, não quer enxergar o que se passa aos lados, mas apenas diante de seu próprio umbigo.
Indivíduo que, de modo cético, afirma inalteravelmente que tudo o mais inexiste, pois não concerne aos seus interesses mesquinhos, mas de uma coletividade desprezada por seu egocentrismo. Afinal, na visão do ser que braveja seus interesses pelos ares, a inércia é deixada apenas quando algo o atinge ou o faz a um dos seus.
(...). O mundo, daqui de baixo, com as lentes embaçadas de quem não quer ver, é demasiado restrito. É preciso estar livre para alcançar a dicotomia da produção do conhecimento. (...) o tempo biológico, marcado por sua efemeridade, evidencia as lacunas do tempo histórico na memória de quem murmura, tendo em vista que se esquece do passado, mas emite seu não saber sobre o presente, como se toda a estrutura social fosse produto de um instante.
(...). Afinal, viver dentro de si, cercado por verdades que imperam e regem tão somente o universo particular é demasiado mecânico e artificial, reflexo de que os óculos estão nublando o sentido e de que há verdades muitas sendo deixadas de lado talvez pela falta de pontos de vista.

(por Ronaldo Junior).


Fonte: © obvious: http://obviousmag.org/descaminhos/







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