O prazer saiu de cena...















O texto que segue é editado. Fruto da entrevista do filosofo Fernando Munia a jornalista Denise Meira do Amaral (http://glamurama.uol.com.br/filosofo-explica-porque-deixamos-de-sentir-prazer-na-vida/). Embora se fale muito. Embora haja uma busca incansável. A sociedade atual esta incapacidade de sentir. Prazer. E ele compara esta realidade com a cultura grega. Suas ideias estão contidas no livro “Prazeres Ilimitados”. Acredita-se ser interessante dividir com os incautos visitadores do “A Jurubeba Cultural” este trecho da entrevista.. Deem uma lida.   




                                                       “ O prazer saiu de cena e se tornou uma certa compulsão, uma coisa que nunca se realiza. A sociedade exige sempre mais e mais, projeta para o futuro uma coisa que nunca ocorre. E essa antecipação provoca ansiedade, que vai adiando o momento da realização, e o prazer nunca acontece. O que existe é a voracidade, o consumo de tudo em volta, mas que não traz saciedade.
O mundo contemporâneo está, ao contrário do se pensa, mais afastado do prazer. Quando o prazer passa a perder a importância, a vida passa a ser ameaçada.
Muito do mal estar contemporâneo está ligado a essa incapacidade de viver o prazer. (...).
Apesar de vivermos em mundo hedonista, não temos nenhuma reflexão profunda sobre o prazer. O prazer hoje é tido como uma coisa que todo mundo acha que sabe. Como o prazer já é um dado, uma coisa óbvia, ele deixa de ser um problema, e, consequentemente, deixa de ser um objeto de reflexão. Já na Grécia antiga, o prazer foi objeto de muito questionamento. (...).
Uma nova relação amorosa, ter mais dinheiro, poder, fama, um corpo mais perfeito. Ou seja, o que você impõe a você mesmo, esvazia a própria possibilidade de você ter uma vida plena e satisfeita, sempre projetada para um futuro inacessível. Isso gera uma histeria de tanta incitação. (...).
Essa perda não é uma questão individual. Você não decide ter ou não ter um comportamento compulsivo. As sociedades estão organizadas desta forma. A incitação ao consumo, ao que vem depois, faz com que as relações humanas sejam provisórias.
A fila está sempre andando. O que você acabou de comprar já não tem importância alguma. As necessidades que você jamais teve, vai ter amanhã. Você não tem mais prazer nem com pessoas nem com coisas.
Isso gera um buraco no mundo contemporâneo.
É uma situação de frustração constante. (...).
Todo mundo parece feliz.
As pessoas acham que elas precisam parecer assim, mas acabam parecendo mais histéricas do que felizes.
Sem entrar nos aspetos positivos das redes sociais, as pessoas acabam expondo somente o que querem que as outras saibam dela. É sempre narcísico. As pessoas entendem que a vida delas tem valor porque ela mostra. É um esvaziamento da própria vida, uma incapacidade de se encontrar sentido. Já que as coisas não tem sentido, é preciso postar. A vida se dá pelas reações: se alguém curtiu ou não curtiu. (...).
É um jeito de lidar com o esvaziamento, mas é provisório.
A pessoa precisa postar outra coisa, e depois outra. (...). Ela pode achar um namorado e, sem saber o que ela o quer posta uma foto dele. Então, ela começa a ver se aquilo pode fazer algum sentido, dependendo das reações dos outros. O valor é dado de fora e não por ela mesma. É uma espécie de patologia cultural, uma doença da nossa própria cultura. Não encontramos ainda os meios para que as pessoas se tornem satisfeitas. (...).
Os gregos faziam uma reflexão constante. (...): “Como a minha vida pode ser maravilhosa?”. Isso não é uma questão. Para os gregos, era.

Para você encontrar a justificativa da sua existência acho que a reflexão é o primeiro passo. (...) uma volta aos gregos, no sentido de recuperar as questões sobre o que é o prazer, qual é o lugar que ele tem na nossa vida e o que ele significa.



► Imagem: “Aphrodite agachada” (c. 260 aC).
Cópia romana. Villa Adriana, Tivoli

(Museu Nacional de Roma).







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