Quanto mais envelheço. 
Mais sinto fome de mim.


                                                         
A seguir você poderá ler (caso queiram) o texto do médico ginecologista que nos momentos longe da “criação da vida” (ah! Elas...) resolve ser escritor publicando suas crônicas no blog “Revista Bula” e “Jornal Opção”. Eberth Vêncio. Desde os anos oitenta publica livros e textos em jornais e revistas. Segundo informes ele é o criador do “Festival de Artes do Médico Goiano”. Não se sabe se ainda existe este evento. Mas é uma ideia que estes profissionais deveriam copiar pelas diversas cidades do país. Enfim. Ao lê-lo. 
O reconhecimento foi imediato. O eminente (ainda existe esta palavra?) escritor-médico desenha nas palavras aquilo que se pensa. Não possuindo sua competência. Transcreve-se o seu texto neste espaço virtual. Definitivamente. Quanto mais envelheço sinto uma fome retada de mim. Vida longa ao Eberth Vêncio.


                                                                “ Um abismo maior que duzentos Maracanãs vazios interpõe-se entre as coisas que o mundo demanda de mim e aquilo que eu realmente espero dele. Pular nesse imenso vazio poderia ser o fim de tudo ou o começo de um voo nada absurdo rumo à libertação. Quem poderá dize-lo? Não tenho garantia nenhuma. Aliás, sequer asas possuo. 
Que pena. Eu precisava comprar um carro novo em folha, insiste a mídia. Mas prefiro uma nave, uma bolha para escapar flutuando do planeta, na companhia de uma tripulação restrita e escolhida a dedo. Eu precisava ganhar uns dez quilos. Muitos precisavam perder vinte quilos. Nesse perde e ganha de banhas e aparências, são raros os que se tocam que o peso de viver nesse mundo-de-nem-deus jamais será mensurado em gramas. Não arrear com tamanha carga emocional: eis um desafio para burros e espertos. 
Eu precisava ter mais grana, ser sorteado na loteria, ficar rico até os ossos e me desgarrar da ralé, dos pobres coirmãos. Mas não confio em pessoas que apostam sua felicidade em jogos de azar para fazerem papel de bobos ao desprezarem as estatísticas. 
Sonhar baixo: já me disseram que isso é um defeito, uma evidente falta de ambição da minha parte. Acho que é só excesso de pragmatismo, o que não deixa de ser uma auto-sabotagem, de acordo com os padrões sociais vigentes. Eu precisava subir na vida. 
No duro: na maior parte do tempo, eu penso em pegar descendo, sumir do mapa, tornar-me um eremita e fazer visitas esporádicas ao shopping-center durante aqueles surtos de solidão incontrolável, se é que me entendem. 
Pode parecer paradoxal, mas, às vezes, é mais seguro topar com gente do que com os fantasmas da mente. Eu precisava alongar o pênis — o meu pênis — , incrementar o handcap na cama, fazer a minha parceira mais feliz. Por outro lado, passear de mãos dadas com um grande amor, à noite, num parque à beira de um lago, num beijo em busca de um lábio, sem ser trucidado por bandidos sanguinários, já seria um tesão. Ah, a justiça brasileira… Acreditar na sua eficiência é mais ingênuo que fantasiar dragões na lua. 
Eu precisava comprar uma peruca para ficar bem na foto. Mas que droga é essa? 
As dores do mundo fazem-me perder os cabelos, atrofiar a esperança, sentir-me mais solitário que um cidadão comum sob a mira de uma arma incomum até mesmo para as forças armadas. 
Eu precisava mais espaço na boca, meter no sorriso um arame farpado, arrancar os dentes sisos. 
Só que eu almejo ser menos indeciso, sorrir com os dentinhos tortos que papai-do-céu me presenteou, sem receio de ser julgado ou mal interpretado. 
Eu precisava de um empréstimo bancário a perder de vista. Parece vantajoso? Abram os seus olhos: já pensaram como tudo seria mais simples se voltássemos a viver do escambo? Quem tivesse amor de sobra, que fizesse uma grande obra: distribuía um bocado de afeto aos que possuíssem quase nada. Em contrapartida, os afetados que retribuíssem com as suas míseras migalhas de rancor — a única moeda de que são capazes — já que a vida sempre bela é uma meta inconcebível. 
Metem isso na minha cabeça a todo instante: eu precisava aumentar o limite do meu cartão de crédito, pra gastar mais dinheiro, pra consumir até ficar feliz. 
Eu garanto a vocês que eu preferiria dar mais crédito à vida como ela é, e intuir que o mundo pudesse melhorar a cada dia, rumo à irmandade universal absoluta entre os povos. 
Tá nos folders e nas revistas: eu precisava viajar pelo mundo. 
Mas confesso que sou viciado em viajar na maionese. O duro é que meus pensamentos quase sempre me conduzem até onde o vento faz a curva, a ponto de muitos julgarem que eu perdi o juízo lá onde Judas perdeu as botas, e que estou me tornando uma companhia bastante desagradável. 
Eu precisava frequentar uma igreja — qualquer tipo igreja — aos domingos. 
Mas eu não vou a lugar nenhum porque, pra mim, todo dia é sábado, e sábado é o dia da semana em que descanso de toda espécie de fanatismo. 
Eu precisava criar um blog, dar mais as caras nas mídias sociais, coisas do marketing pessoal, é o que dizem. 
Mas sinto um orgulho incrível de ser antissocial. (grifo nosso).
Os paparazzi simplesmente me repugnam. Eu precisava evitar a lactose, o glúten, a gordura trans, e os transgênicos. É o que recomendam as bulas, o Doutor Dráuzio Varela, e as vizinhas. 
Prefiro mais engolir sapos do que seres humanos intragáveis. 
A transformação interior, uma vez iniciada, é um fenômeno quase sempre irreparável, algo que independe de dieta ou gula. 
Na verdade, eu preciso de quase nada nesse mundo. 
Porque, quanto mais eu envelheço, mais sinto fome de mim. 











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