Por que se lê tão pouco?
Neste país tropical.


















“70% da população do nosso país simplesmente
não abriu um único volume que fosse para folheá-lo.
Em grandes cifras, dos 202 milhões de brasileiros.
141.400 milhões simplesmente não leram,
seja qual for o motivo.”
(‘O Globo. 31.03.2015).


Ai está o texto do José Figueredo.
Ele é estudante de letras lá no Rio Grande Sul.
Colunista e coeditor do no sitio “Homo Literatus” onde foi publicado (http://homoliteratus.com/por-que-o-brasileiro-le-tao-pouco/).
Leiam.


Por que o brasileiro lê tão pouco?
(...). Uma verdade que pode parecer grosseira, e talvez seja em um primeiro momento, pode ser a causa desse mal nacional: a preguiça, pura e simplesmente a preguiça que toma conta da nossa gente. Aqui não faço distinção de credo, raça, cor, classe social e nível de escolaridade, pois todos, dos homens de terno que se orgulham de pôr nos seus currículos os MBAs aos mais simples cidadãos, passando inclusive por muitos professores, até os de literatura, do Brasil não gostam de abrir um livro. Falta-lhes palavras para responder qual o motivo dessa livrofobia, (...). Nas escolas públicas há hoje o Plano Nacional do Livro e da Leitura, o qual faz com que caixas e mais caixas cheguem às escolas com livros bonitos e prazerosos. Estes, infelizmente, continuam a amargar a solidão das próprias caixas ou a das prateleiras de uma biblioteca esquecida.
E por que isso acontece ainda hoje em nosso país?
Não podemos culpar completamente os valores excessivos dos livros (...).
Não podemos também culpar por completo a internet & Cia, pois eles abrem a possibilidade da leitura de livros em novos formatos nas mais variadas plataformas (...).
Há ainda aqueles mais saudosos, (...). “ No meu tempo, quando os professores eram duros, rígidos como se deve, líamos mais e líamos melhor.”  (...), posso apostar que ele mesmo, paladino do passado, está nos sete dos dez, não no grupo dos três.
Mas será mesmo a preguiça a causadora desse fenômeno?
Eu afirmo que sim e explico por quê.
Ao falar de preguiça, não estou usando o sentido clássico de ócio ou vadiagem. (...) a preguiça do brasileiro nasce de um emaranhado de problemas a reforçar falsas ideias.
A primeira delas é a de que ler é difícil. Isso se dá, em grande parte, por não haver um grande público leitor. No Brasil, país que no século XXI ainda luta com o dragão do analfabetismo, aqueles que dominam a linguagem escrita e a tem há pelo menos três gerações na família são muito poucos. Um dos melhores meios de se criar e instigar ao hábito da leitura é a sala da própria casa. Não tendo esse hábito no cotidiano, tem-se que importá-lo de outros meios. O caso é que antes mesmo que os mais jovens tentem fazê-lo, os mais velhos, quer por ignorância ou por resquícios de um tempo em que apenas doutores de anel liam, desencorajam seus filhos e netos da empreitada de ler um volume inteiro.
“É difícil demais, você não vai conseguir.”
“Tentar para quê? Vai cansar no meio e deixar o coitado rolando.”
Esse problema, que é real, advém de outro, um segundo que é possivelmente o pior de todos: a falta de sentido de ler. (grifo nosso).
Não foram poucas as vezes que ouvi, vi e li o seguinte argumento contra a leitura, em especial de literatura: Tudo bem, eu vou ler esse livro, mas o que faço com ele depois? Em que vou usar essa história?  (grifo nosso). Se fosse ao menos um livro de ciências, quem sabe…
O autor dessa frase não está interessado naquilo que a literatura, mais do que qualquer outra arte ou tipo de texto, pode proporcionar-lhe: a arte de viver outra vida sem sair da sua. (...) a função última da literatura é essa, proporcionar vivências que no geral não teríamos por essa ou aquela circunstância.
Esse utilitarismo boboca, de cunho insipiente e imediatista não nota, ou nega para si, que não vivemos apenas os próximos cinco minutos, a próxima semana ou mês. Estes que argumentam “que farei com esse livro?” não compreendem que o acúmulo de experiências lidas pode agregar ao seu cotidiano e à sua profissão em vários níveis: na forma como lidamos com nossos colegas, em como resolvemos os problemas que surgem no nosso trabalho, em como integrar um grupo de empregados para determinado fim, na forma como podemos criar algo novo graças a um detalhe bobo que lemos.
Esse último problema citado leva à preguiça pela possibilidade.
De fato, poucos no nosso país no decorrer da História tiveram um meio em que livros circulavam diariamente.
O conhecimento, aliado à supervalorização do livro como objeto até meados do século XX, criou uma áurea falsa de que a leitura:
1º) tem de ter um fim e
2º) apenas alguns poucos capazes podem fazê-la.
Além disso, a ideia de prazer, de gozo (Roland Barthes, em O prazer do texto, fala que não há como ter leitura sem o gozo da leitura) não está atrelada ao fato de abrir um livro e acompanhar suas linhas.
Podemos culpar o péssimo ensino, contudo seria apontar um único ladrão do bando. Provavelmente ainda sofremos as consequências da nossa colonização e do ensino reduzido a um grupo seleto de aristocratas e pessoas de posse. Aliada a uma visão excessivamente iluminista, pode ter criado uma preguiça, senão um novo, na nossa população para com o fato de pegar um tomo e folheá-lo.

(E a literatura não é a única a sofrer o peso dessa mania utilitarista-imediatista. As artes, em geral, sempre foram e parecem estar fadadas a se tornarem “ocupações de desocupados que não tem nada mais com que se preocupar.”) (grifo nosso)

Poderia discorrer outras tantas mazelas que reforçam o fato, mas seria apenas se repetir. Enquanto não mostrarmos aos 70% de não leitores as maravilhas que para além da preguiça criada pelos fatos supracitados (e por outros tantos que se podem imaginar), seremos vistos como uma nação que cultua a educação e exige um ensino de qualidade, mas que sempre se manterá distante de um dos melhores e mais divertidos objetos dessa revolução:
                                       O Livro.









Nenhum comentário:

Postar um comentário