Por que o brasileiro não lê?




















O autor do texto que segue é do advogado e produtor editorial Filipe Larêdo.  Foi publicado no sitio ”Papo de Homem” (em 19.11.2013). Continua bem atualizado. Afinal tudo que se relaciona a Educação neste país continua sem grandes e profundas transformações. Mesmo sendo editado o texto que segue é um pouco longo para quem viaja pela internet. Mesmo assim, vale a pena (tentar) lê-lo.  


“Somos todos feitos do que os outros nos dão:
primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam;
a literatura abre ao infinito essa possibilidade
de interação com os outros e, por isso,
nos enriquece infinitamente.”
 (Tzvetan Todorov).


                                                  “ A importância da leitura dentro da história da humanidade sempre surgiu como uma condição essencial para a construção do poder crítico do indivíduo. Para entender  - e compreender - os acontecimentos de sua época, a pessoa deve possuir ferramentas que apenas o conhecimento pode transmitir. Esse conhecimento pode estar guardado em inúmeros lugares. Porém, para escutarmos o que as gerações antigas têm a nos dizer, precisamos consultar os livros, pois neles ficaram registrados seus pensamentos, incluindo certas instruções para a resolução de problemas que, no fundo, apenas se repetem. Vejamos um exemplo. Milênios atrás, Aristóteles, um filósofo grego, escreveu um livro chamado ‘Política’, no qual analisa o contexto de sua época e de épocas anteriores, além de apontar os regimes políticos possíveis. Apesar da grande distância de tempo, os teóricos políticos dos tempos atuais precisam passar pelo estudo das teorias aristotélicas para refletir acerca das condições atuais.
Para continuar na Grécia, passemos para o professor de Aristóteles, Platão. Em sua mais conhecida obra, ‘A República’, ele descreve um modelo ideal de cidadão que, se fosse reproduzido em larga escala dentro da cidade, constituiria uma sociedade perfeita, na qual todas as pessoas viveriam em perfeita harmonia. Milênios depois de ter escrito sua teoria, ele permanece sendo referência para os estudiosos posteriores, que o leem com bastante atenção.
Esses dois exemplos citados serviram para que possamos perceber a importância dos pensamentos antigos para a reflexão contemporânea dos acontecimentos. E até hoje, o modo mais comum de registro ainda é o livro. E o que é ser leitor? Para ser leitor, basta ler. Simples. Se a leitura for assim considerada, então os brasileiros não tem problema algum com ela, já que estão constantemente lendo alguma coisa, seja na internet, nas placas de trânsito, nas legendas dos filmes e dos jogos de videogames ou nos anúncios dos shoppings centers. Leitura é o que não falta no dia a dia das pessoas no Brasil e no mundo. Nesse caso, é melhor recolher o texto que estou escrevendo, porque o brasileiro lê, sim. Mas será?
Para organizar melhor os argumentos, foi escolhida uma fonte de referência que se renova de dois em dois anos e já se encontra no terceiro volume, que é a pesquisa “Retratos da leitura no Brasil” (Instituto Pró-livro.São Paulo). Nela, pessoas espalhadas por todo o país responderam diversos questionários, e foi possível saber, dentre muitas coisas, não apenas a quantidade de pessoas que têm o hábito da leitura, mas também porque os brasileiros não leem. Segundo o livro leitor seria “aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos  um livro nos últimos 3 meses”. E não leitor seria “aquele que não leu, nenhum livro nos últimos 3 meses, mesmo que tenha lido nos últimos 12 meses”. Sendo assim, excluem-se leituras em jornais, revistas, folhetos, internet etc.
Na pesquisa feita em 2007, o número de livros lidos por habitante/ano era de 4,7.
Na pesquisa divulgada em 2013, esse número caiu e atingiu a marca de apenas 4 livros por ano, sendo 2,1 inteiros e 2,0 em partes. Preocupante, não? (...). Uma marca preocupante para um país que deseja se desenvolver e que figura entre as dez maiores economias do mundo. E por que o brasileiro não lê? Com o baixo interesse do brasileiro em leitura confirmado pela pesquisa, resta agora tentar entender os motivos que geram essa problemática. Vamos lá.


■ Pais que não têm o hábito de ler não são boas referências de leitura para o filho. 
Para que uma criança descubra o prazer pela leitura, a primeira influência que ela pode receber é a familiar. Assim, se os pais têm o hábito de ler constantemente em seus horários livres, a criança rapidamente vai associar essa prática a uma coisa legal e divertida. Mas, se ao contrário, os pais não têm o hábito de pegar um livro nas mãos, a criança vai apenas reproduzir aquilo que vê em casa. Um detalhe interessante para se destacar nesse ponto é sobre o que os brasileiros costumam fazer quando têm tempo livre, ou seja, quando estão fora do trabalho, da escola ou de quaisquer obrigações. A resposta é surpreendente.
A leitura ocupa uma singela 7ª colocação, atrás de assistir à televisão, descansar e escutar música ou rádio. Porém, um dado rivaliza com esse que acabamos de descobrir. Questionados sobre as razões que o fizeram não ter lido nos últimos três meses. 53% dos brasileiros responderam que não tinham tempo para ler. Com esses dados em mãos, fica fácil perceber que, embora tenham rapidamente apontado, o verdadeiro problema não é a falta de tempo, e sim a falta de interesse pela leitura. O que acontece é que a pessoa prefere tomar uma cerveja no bar com os amigos, assistir a um jogo de futebol ou a um filme do que sentar numa poltrona ou sofá para ler um livro.
O mesmo ocorre quando as pessoas questionam que não têm dinheiro para comprar um livro ou que o livro custa caro. Muitas vezes, sim, ele custa caro, mas o mesmo sujeito que faz essa reclamação reserva uma quantia de seu salário para gastar em farra no final de semana. Então, mais uma vez, o problema não é o dinheiro, e sim o interesse.

■ O paradoxo do preço do livro. Ah, o preço do livro é alto demais? Chegou a hora de você conhecer o paradoxo que envolve esse problema. Resumidamente, para o preço de o livro ser definido, a editora soma diversos valores, que incluem as seguintes etapas:
Produção (texto, diagramação/projeto gráfico, revisão e design de capa); impressão; marketing; distribuição. Todas essas etapas variam de preço, sempre dependendo da qualidade do profissional que vai executá-las. Porém, uma delas possui um detalhe que é universal: Quanto mais livros são impressos, mais barato fica o preço unitário. Isso acontece porque o custo de colocar uma máquina de impressão para funcionar é alto e, para se mantiver, as gráficas precisam dar prioridade às grandes tiragens, que, embora utilizem mais materiais, compensam na continuidade do trabalho. (...). As pessoas não compram livros por os considerarem caros, e os livros são caros porque as pessoas não os compram. (grifo nosso).
A influência da família no cultivo do hábito da leitura em casa é de extrema importância. Pais que gostam de ler estimulam seus filhos. E essa questão muitas vezes não tem relação com o baixo ou alto poder aquisitivo, já que bibliotecas existem para conceder o acesso. Mas e quando os pais não sabem ler?


■ Bem, esse é o nosso próximo tópico. 
O analfabetismo.
Os dados coletados pela pesquisa “Retratos da leitura no Brasil” indicam que os índices de leitura aumentam com o crescimento do nível de escolaridade (...). Embora muitas pessoas hoje já possuam acesso a níveis de escolaridade superior, muitas delas não possuem habilidades de leitura ou até mesmo são analfabetas, como foi o caso do rapaz que passou em 9º lugar no vestibular de Direito (2001) sem saber ler e escrever. Isso impede que o vínculo afetivo da pessoa com o livro seja possível, uma vez que, para ela, ler é um sacrifício tremendo. Mas como explicar que pessoas com níveis de escolaridade concluídos não saibam ler ou tenham grandes dificuldades? Vamos voltar um pouco no tempo.
A partir da década de 1980, é possível perceber profundas mudanças conceituais e metodológicas no processo de alfabetização. Por décadas, o modelo tradicional foi representado pela cartilha, a qual se constituía num mero código de representação de linguagem oral. Hoje, é possível ver que a escrita passou a ter um caráter simbólico.
Esse modelo representado pela cartilha tem origem num contexto político bem singular de nosso país. A partir da década de 1960, por conta da evolução tecnológica, os países economicamente desenvolvidos passaram a exigir que o trabalhador soubesse apenas o lado funcional da escrita, de modo a conseguir operar técnica e cientificamente as teorias e os aparelhos usados em suas demandas de produção. Dessa forma, os sistemas educacionais do mundo inteiro tiveram que se adaptar às novas regras. Com esse cenário armado e uma ditadura definindo as regras do país, o brasileiro se acostumou a identificar no professor a figura da autoridade, que não dá espaço para a indisciplina, mas que também afoga as práticas sociais de leitura e escrita, as quais incorporam condições essenciais para o exercício da cidadania plenamente consciente.
Dessa época para cá, passaram-se cerca de cinquenta anos e, apesar de todas as mudanças que vêm sendo aplicadas no sentido de alfabetizar as pessoas de modo a torná-las “alfabetizadas letradas”, e não apenas meras reprodutoras de informações, ainda assim não conseguimos resultados satisfatórios.
Um exemplo disso são as leituras obrigatórias nas escolas.
Grande parte delas são clássicos das literaturas brasileira e portuguesa, entretanto, a despeito de sua relevância histórica, não são nada sedutoras para crianças e adolescentes que estão adentrando nesse universo. Livros como “Senhora” (José de Alencar) e “Auto da barca do inferno” (Gil Vicente) são magníficos, mas verdadeiras esfinges para os estudantes do segundo grau. Por não conseguirem absorver muita coisa das leituras, frustram-se e as abandonam, preferindo se preparar para as provas estudando resumos feitos pelos pouquíssimos colegas que conseguiram entender algo.
Mas a pior consequência desse cenário é o fato de que esse adolescente vai continuar identificando a leitura a algo chato e sem graça, pois sempre que recebeu um livro nas mãos, escutou: “decifra-me ou te devoro”.
Mesmo novo esse jovem aluno já possui dois desafios tremendos: pais que não gostam de ler e poucos livros interessantes para ler na escola. Contudo, nos últimos anos, o Governo Federal tem investido muitos milhões de reais para abastecer as bibliotecas públicas e/ou escolares do Brasil. Todos os anos, ele compra milhares de livros que são distribuídos por todas as cidades e que deveriam chegar às mãos de professores e alunos.

■ O problema surge quando se verifica que as escolas têm... Professores mal preparados. Para que alunos sejam bem formados acadêmica e intelectualmente, uma peça não pode faltar: O professor.
Ele é o personagem principal quando o assunto é estímulo à leitura. A sua importância chega ao ponto de até ocupar o topo da lista de quem mais influenciou os leitores a ler, ficando na frente dos pais e dos amigos. Porém, quando esses professores não possuem uma boa formação ou uma prática de leitura bem firmada, os alunos não detectam que o livro pode ser divertido e permanecem considerando o objeto como uma simples ferramenta necessária para passar de ano. (...).
Se eles não têm pais que gostem de ler dentro de casa, não têm professores preparados para ensiná-los a ler com prazer (...), o que mais vocês esperam que aconteça? (grifos nossos). (...).
Para formarmos um país de leitores, precisamos começar dentro de nossas próprias casas, precisamos entender que a leitura é, sim, prazerosa, e que rende frutos fascinantes para aqueles que a praticam. Com ela, uma pessoa pode, efetivamente, se tornar cidadã, com poder e consciência crítica. Agora que sabemos os motivos que prejudicam o hábito da leitura no Brasil, podemos identificar as soluções, não acham?

■ Então levante, pegue o seu livro (impresso ou eletrônico). Comece a ler. Qualquer leitura é válida. Vamos aumentar essa média de leituras por ano no Brasil?






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