A implosão da mentira*.




Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente mentem.
Mentem tão nacional/mente que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases falam.
E desfilam de tal modo nuas que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade pela mentira, nem à democracia pela ditadura.






Evidente/mente a crer nos que me mentem uma flor nasceu
em Hiroshima e em Auschwitz havia um circo permanente.

Mentem. Mentem caricatural-mente.
Mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente,
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem clara/mente como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente, como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho.
Mentem om a cara limpa e nas mãos o sangue quente.
Mentem ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre.
Mentem fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador com a armadilha.

(...).
E de tanto mentir tão brava/mente.
Constroem um país de mentira - diária/mente.




Mentem no passado. E no presente passam a mentira a limpo.
E no futuro mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu quem mente.
Mas o tribunal que o julga herege/mente.
Mentem como se Colombo partindo do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.
(...).  Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo onde o advérbio e o adjetivo não mentem
          ao substantivo e a rima rebenta a frase numa explosão da verdade.           
E a mentira repulsiva se não explode pra fora pra dentro explode implosiva.

                                                                                     Affonso Romano de Sant'Anna (1937)**



*: Texto editado. Original publicado pela Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1987.
**: Escritor brasileiro.











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