Brasil.
                      Um esquizofrênico. Congênito.




















Para minha juventude, o sonho acabou
em 31 de março de 1964.
O golpe militar nos trouxe de volta à realidade
miserável do país, à sua mediocridade política.”



Uma vida vivida acreditando fortemente no poder de criação e construção de um novo destino para este país. Aproxima-se o encerramento da passagem pelo planeta vendo-o igual ao momento da chegada. E já se vão passando dezenas de anos. Em alguns aspectos. Pior. Frustrante. Entristecedor. O texto mostrado neste espaço virtual é do cineasta Cacá Diegues*. Em determinado momento ele menciona a existência de uma esquizofrenia nacional. Dizem que a esquizofrenia não é um distúrbio. É uma doença crônica, complexa e que exige tratamento por toda a vida. Eterna. De causas ainda desconhecidas. Genética? Este “Sr. Brasil” (com a devida licença do Boldrin) é um doente crônico. Resta-nos aceita-lo como é. Paciência. Fiquem com o texto do Cacá Diegues*.



                                                  “ Parece que o Brasil não gosta de ser feliz. Ou não acha que tem o direito de ser feliz. Esse é um clássico da psicanálise freudiana: você tem tanto medo da punição que deve vir depois da felicidade que, para superar a angústia, chega mais depressa à punição, pulando por cima da felicidade.
Não existe o ser feliz ou infeliz.
Todos nós, pessoas, animais, países, o que for, vivemos apenas momentos de felicidade e de infelicidade. Cabe a cada um valorizar os primeiros e procurar passar chispando pelos segundos. Um desejo megalômano de perenizar o que sentimos nos faz pensar que somos felizes ou infelizes para sempre. Uma ilusão de nossa mente.
A minha geração viu o Brasil chegar várias vezes à beira de sua consagração como país.

● Em 1945, aliados dos Aliados, saímos da guerra no topo do altar dos vitoriosos, com imensas reservas e uma economia que prometia ser a mais rica da América Latina. Além de um regime democrático recém-instalado que, infelizmente, durou menos de 20 anos.
● Torramos nossas reservas e cometemos equívocos políticos que nos obrigaram a adiar o sucesso para a passagem da década de 1950 para a de 60, quando Juscelino Kubitschek decretou que iríamos crescer 50 anos em cinco. E nós acreditamos. A fundação apoteótica de Brasília, a velocidade da industrialização do país, os automóveis brasileiros chegando às ruas, duas Copas do Mundo, os bem-sucedidos movimentos culturais contemporâneos, o clima de liberdade absoluta, tudo isso nos fez crer que o futuro havia chegado.
● Para minha juventude, o sonho acabou em 31 de março de 1964. O golpe militar nos trouxe de volta à realidade miserável do país, à sua mediocridade política. Muitos morreram em nome da Beleza e da Justiça, como o herói de “Terra em transe”; mas a imensa maioria foi se adaptando em nome da realidade e da sobrevivência. O Brasil ficou triste de novo, cultivando esses anos de infelicidade.
● No início dos anos 1970, fomos surpreendidos pelo “milagre econômico” produzido pela ditadura para que nos orgulhássemos dela. Chegamos a crescer mais do que 10% ao ano, taxa que só muito depois a China conheceria. Nunca fomos tão solicitados a nos identificar com nossa divisa oficial de “Ordem e Progresso”. Seu traçado sinuoso na bandeira podia muito bem ser um ícone da estrada Transamazônica, síntese do rumo ao interior e ao fim da fome.
● Pura ilusão que os militares não conseguiram levar muito longe e que ficou disfarçada por trás da euforia com a redemocratização do país. Tancredo Neves e, depois de sua morte, o vice José Sarney, passaram a ser depositários da nova esperança nacional que acabou afogada na maior inflação na História do Brasil, na quebra do país e na consequente moratória internacional. Hoje, quem não viveu esses dias é incapaz de imaginar do que se trata viver sob uma inflação de cerca de 90% ao mês, uma desvalorização constante e crescente da moeda, um caos econômico que permitiria a invenção de todos os pecados e malfeito público.
● Acho que nunca fomos tão autodestrutivos, nunca nos subestimamos tanto, nunca cuspimos tanto em nossa própria imagem, incapazes de compreender a extrema infelicidade a nos martirizar na crista do sonho democrático. Muitos disfarçaram sua infelicidade com o cinismo, a se perguntar para que, afinal de contas, servia a democracia. Foi só a partir do início dos anos 1990 que o Brasil voltou a sorrir.
● Primeiro, com a vitória do impeachment de Fernando Collor de Mello; depois, com o sucesso de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Lula. Durante esses quase 20 anos, o país só fez se animar, não só face ao nosso eterno futuro, mas também com o próprio presente de consolidação da democracia, controle da inflação, valorização da nova moeda, crescimento do emprego, distribuição relativa de renda que produziu uma nova classe média que sempre nos fez falta.
● Mais uma vez, voltamos a ser felizes e desta vez achamos que era para sempre. Isso não era dito apenas por nós, mas também pelos bancos, institutos, jornais e governos de todo o mundo, até a consagração do Brics, termo inventado pelo economista inglês Jim O’Neill, colocando-nos ao lado de Rússia, Índia e China como os países ascendentes de um novo mundo solar.

E é aí que entra em cena, mais uma vez, a esquizofrenia nacional.
Como que por força de um destino previamente traçado, alguma coisa faz com que não acreditemos em nós mesmos, não acreditemos em nossa vocação para a felicidade, em nosso poder de criação e construção. Boicotamos nosso sucesso como se não o merecêssemos, numa espécie de masoquismo nacional que nos protege da perigosa felicidade.
Agora, voltamos à velha beira do abismo, ali onde sempre estivemos graças à nossa falta de confiança em nós mesmos, graças ao nosso voluptuoso amor pelo desastre.
Um dia, vamos precisar pular sobre esse abismo de uma vez e cair do outro lado, na planície cheia de sol e de tudo, cuidando de nossos filhos com esperança.
Aí sim, sem medo de ser feliz.















*: Cacá Diegues (1940).
O Comendador da Ordem de Mérito Cultural e a Medalha da Ordem de Rio Branco
 as honrarias mais alta do país no campo cultural concedidas a este brasileiro que por engano nasceu em Maceió (Alagoas), mas na verdade é um autentico carioca (Rio de Janeiro). Por engano graduou-se em Direito, mas na verdade é um grande cineasta. Aqui. Justifica-se. Era uma época em que não havia, no Brasil, escolas de cinema. Estudando na PUC/RJ funda um cineclube e começa suas atividades de cineasta amador. É um dos criadores do “Cinema Novo”. Ativista na resistência intelectual e politica à ditadura militar deixa o país (1969). Logo depois dirige um dos seus grandes sucessos. “Xica da Silva”. Com o fim da ditadura e o surgimento de novos cineastas novas ideias vão surgir. É ele o criador do termo “patrulhas ideológicas", para denunciar os perseguidores das novas ideias. Ainda hoje é usado nas discussões políticas e culturais. Parece ter se transformado no tal “politicamente correto”. Realizador de "Chuvas de Verão" (1978) e "Bye Bye Brasil" (1980), dois de seus maiores sucessos. Depois "Tieta do Agreste" (1996), "Orfeu" (1999) e "Deus é Brasileiro" (2002). Ele é portador do titulo de “l'Ordre des Arts et des Lettres” concedido pela França. Enfim. A história do cinema nacional passa, sem duvida, pela história de Cacá Diegues.











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