O que há de melhor na Literatura Brasileira?




                                                               O sitio “Homo Literatus” (http://homoliteratus.com/) resolveu fazer esta pergunta junto aos seus colaboradores. ‘Longe de uma lista de dez melhores livros clássicos da nossa literatura, esta é uma lista sobre as dez melhores obras da Literatura Brasileira dos mais diversos períodos, temáticas e linguagens’. Acredita-se. Compartilhando esta lista possivelmente ira motivá-los a ler autores nacionais. Afinal. Este país ainda tem excelentes autores e não somente livros para colorir. (Que tristeza).  Confiram.

Quincas Borba (Machado de Assis). 
Poucas vezes na literatura brasileira o tema da loucura foi tratado de forma tão envolvente, sutil e ao mesmo tempo impactante como em Quincas Borba, continuação do clássico machadiano Memórias Póstumas de Brás Cubas. O leitor acompanha o gradual avanço do “grãozinho de sandice” em Rubião, enfermeiro e herdeiro de Quincas Borba, filósofo que desenvolve o conceito de Humanitas (“substância ou verdade”, “princípio indestrutível”). Quincas Borba, que em certos aspectos nos remete ao enredo de O Idiota, de Dostoiévski, faz revisitar as ruas de um Rio de Janeiro sempre tão bem retratado por Machado, e faz parte da sequência de livros do autor do movimento realista, reforçado na literatura brasileira por ele, com Memórias Póstumas.
(por Fernanda Paixão);

Lavoura arcaica (Raduan Nassar).
Obra-prima de Raduan Nassar, que possui  um narrador autodiegético, ou seja, que narra a própria história, e uma linguagem altamente lírica, o que é um tanto raro nas obras literárias brasileiras. Pedro, o irmão mais velho, vem buscar André (personagem principal e narrador), em nome de toda família, para trazê-lo de volta à fazenda, para o berço patriarcal libanês. A partir de então, evidencia-se a presença do forte patriarcalismo e do discurso autoritário, isto por meio de sermões proferidos pelo pai ou por relatos líricos de André. Além  disso, permeiam por toda obra as temáticas da religião e do incesto entre os irmãos Ana e André.  Lavoura é considerada, não só por mim, mas por grande parte dos críticos literários, como uma das obras mais relevantes da literatura brasileira.
(por Estela Santos);

A Primeira Mulher (Miguel Sanches Neto).
A paixão é tanta que não basta o protagonista guardar seu amor pela literatura consigo – por isso ele leciona literatura em uma universidade. Mais do que apenas ensinar, é como se ele se entregasse em suas aulas. Da mesma forma como às vezes, só às vezes, faz algumas alunas se entregarem a ele fora da sala. Ou como ele se rende a uma antiga namorada, mas não tão forte o suficiente para dar um passo além de meros reencontros casuais. E, em meio aos entraves à esta relação, o protagonista se depara com um mundo tão contraditório e absurdo quanto si; e fica para o leitor tirar as possíveis conclusões de A Primeira Mulher, um dos melhores romances do paranaense Miguel Sanches Neto. O enredo evolui gradualmente e é capaz de despertar entre simpatia e desgosto com o narrador-protagonista.
(por Walter Alfredo).

Nihonjin (Oscar Nakasato)
Obra que fez um furor na literatura brasileira ao ganhar o Prêmio Benvirá (2011) e o Jabuti no ano seguinte. O autor, até então desconhecido no cenário nacional, pois ainda não havia publicado nada, foi pivô de uma polêmica no maior prêmio nacional – um dos jurados teria dado nota baixa para os “medalhões” da literatura que eram finalistas, privilegiando os autores menos famosos ou desconhecidos. Polêmicas à parte, o livro realmente mereceu o reconhecimento. Romance de tom memorialista, tema pouco explorado na literatura nacional, Nihonjin conta a saga de imigrantes japoneses que precisaram deixar sua terra natal e partir para o Brasil. O livro, que tem uma linguagem direta, sem rodeios nem experimentalismos, conta, sobretudo, a história de Hideo Inabata e a luta dos japoneses para se “adaptarem” às terras brasileiras. Um romance muito bem estruturado cujos capítulos podem ser lidos em forma de contos. O autor mostrará, ao passar das linhas, que esse desenraizar-se, diferentemente de imigrantes de outras nações, não foi algo tão simples para os japoneses.
(por Luigi Ricciardi).

O cortiço (Aluísio de Azevedo).
A obra de Aluísio de Azevedo carrega uma marcante crítica social em uma época de discussões sobre o abolicionismo, durante o início da industrialização e da ascensão da burguesia. Uma de suas mais famosas obras, O Cortiço, expõe as fragilidades morais dos personagens pela influência do novo ambiente social que vai se formando em torno deles. O português João Romão é dono do cortiço, da taverna e de uma pedreira, e, ainda, um explorador – o que fica evidente na relação que ele mantém com sua amante Bertoleza, uma escrava que o ajuda sem descanso. Mas  Romão percebe que não basta acumular riqueza, ele quer mais, e passa a desejar também a ascensão social. Depois de um rompimento temporário, acaba vislumbrando essa oportunidade em Miranda, seu oponente, um comerciante que possui padrão de vida melhor que ele e boas relações nas altas rodas, o que lhe valeu até um título de barão. Romão procura então tornar-se mais refinado, faz mudanças no cortiço que agora passa a chamar-se Vila João Romão, reaproxima-se da família de Miranda e pede a mão de sua filha em casamento. Bertoleza passa a ser uma “pedra em seu sapato” quando ele então ameaça denunciá-la como escrava fugida, e seu caminho fica livre com o suicídio dela.  João Romão almeja escalar os degraus da sociedade que emergia dos grandes proprietários e comerciantes, e não mede esforços para isto. Em torno dos principais personagens, estão os outros moradores do cortiço e o povo, a chamada “Arraia-Miúda”, gente que passa a morar nas cidades em busca de trabalho e de melhores condições de vida, sujeita a todo tipo de engano e exploração. O próprio abolicionismo acabou sendo uma decisão muito mais política e jogou os negros à própria sorte, sem meios decentes de subsistência, sem estrutura para inseri-los na sociedade, situação que ainda persiste até os dias de hoje.
(por Luigi Ricciardi).

K. – Relato de uma busca (Bernardo Kucinski).
Inebriante. Avassalador. Violento. É difícil encontrar adjetivo específico para este livro. Kucinski constrói enredo em qual um pai procura desesperadamente pela filha desaparecida, que foi engolida pelos tentáculos da ditadura militar brasileira. Ficção ou realidade? As duas coisas juntas. Nesse amálgama primoroso, no qual mistura fatos históricos com um drama familiar vivido por ele próprio, o autor rompe todas as barreiras entre real e imaginário. Um soco no estômago do cidadão brasileiro, em tempos marcados pelos pedidos de retorno daquele regime político.
(por Murilo Reis).

Amálgama (Rubem Fonseca).
Este é mais um daqueles livros que acabam nos pegando de surpresa, não somente pelo autor nos presentear com mais uma inesperada obra – quando achávamos que o grande Rubem já tinha publicado tudo –, como por trazer o melhor de sua desenvoltura técnica e inventiva na arte de narrar. Amálgama, sem dúvida, é o melhor do Rubem Fonseca publicado nos últimos anos. Uma seleta de contos onde perscrutam o velho universo fonsequeiano, cheio de sexo, humor negro e figuras estranhas, além de expressar uma sutil homenagem à literatura.
( por Márwio Câmara).

A Hora da Estrela (Clarice Lispector).
Um dos romances mais famosos de Clarice Lispector, tendo sido transformado em filme e especial de TV, A Hora da Estrela divide opiniões. Enquanto alguns consideram sua obra-prima, outros, mesmo que fãs da autora, não conseguem apreciá-lo tanto assim. É o romance mais “linear” de Clarice, que apresenta a história sofrida da imigrante nordestina Macabéa. Nem por isso deixa de lado os traços da escrita introspectiva da autora, especialmente através da narração de Rodrigo S. M. A Hora da Estrela fala sobre a miséria humana, a questão social dos imigrantes em cidades grandes, o processo da escrita, a culpa em relação à dor do outro e várias delicadezas que somente uma escritora sensível como Lispector saberia transcrever tão bem. O livro é tão curto quanto denso. Não dá para ficar indiferente.
(por Nicole Ayres).

A Casa das Sete Mulheres (Letícia Wierzchowski).
A Casa das Sete Mulheres tem tudo para figurar entre uma das mais importantes obras literárias brasileiras. A trama é inteiramente perpassada pela Guerra dos Farrapos, mas escolhe focar-se num ponto mais íntimo: as vidas das mulheres que ficam em casa aguardando. De um lirismo encantador, romances inesperados (mas nem de longe tão sensuais quanto os da versão televisiva, que, aliás, alterou muito da história) e esmero histórico, a obra de Letícia Wierzchowski se mostra capaz de fazer frente a qualquer calhamaço épico internacional.
(por Maria Luiza).

Cordilheira (Daniel Galera).
Se Barba ensopada de sangue foi o início de meu amor por Daniel Galera, Cordilheira foi sua consolidação. Lançado em 2008, foi o primeiro título da coleção Amores expressos da Companhia das Letras, cuja proposta são romances ambientados em vários lugares do mundo. A obra traz a história de uma escritora, Anita, que, depois do trauma do suicídio de uma amiga, aproveita o lançamento da tradução de seu livro e resolve passar uma temporada em Buenos Aires, onde conhece José Holden, também escritor e membro de um grupo, no mínimo, excêntrico, que coloca em questionamento os limites da arte. É talvez o livro mais diferente de Galera, criado por sua vontade de desenvolver uma protagonista mulher, e um começo bastante promissor para a coleção heterogênea da editora. Se bem me recordo, as descrições de paisagens e cenários em Buenos Aires são particularmente maravilhosas.
(por André Caniato).

► Imagem: Quinho Ravelli (1969). Pseudônimo de Marcos de Souza, ilustrador, chargista e caricaturista brasileiro de Minas Gerais.








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