O “muro” da Europa.
(não mudou a ética).

O “A Jurubeba Cultural” compartilha com vocês 
este texto do Professor emérito da Universidade de Brasília
 e Senador da República. Cristovam Buarque.


                                                                   (Século XVIII ...)

Durante séculos, os europeus e americanos, do Norte e do Sul, arrancaram africanos de suas vilas e famílias, transportando-os forçadamente em navios negreiros para escravizá-los. Graças a investimentos em educação, ciência e tecnologia, os europeus conseguiram realizar o imenso sucesso da civilização industrial.

O sucesso da Europa e a estagnação da África criaram um novo tipo de navio negreiro, transportando africanos empurrados pela fome. Mudou o mar, a direção dos barcos, o tipo de algemas, mas não mudou a ética.

Quando o continente europeu sofreu escassez, as Américas receberam dezenas de milhões de pobres europeus. Agora, a Europa constrói um “muro” para impedir a entrada de africanos esfomeados.

Em algumas semanas, morreram mais africanos na “Cortina de Ouro” do Mediterrâneo do que durante todo o tempo da “Cortina de Ferro” que separava a Europa Ocidental e Europa Oriental. (...). as grandes crises do mundo de hoje
 - desigualdade, migração, ecologia, terrorismo –
 decorrem do sucesso da civilização industrial que se protege deles
 construindo “muros”.

A tragédia no Mediterrâneo é a mais visível desses “erros do sucesso”
 e da “Cortina de Ouro” para implantar a “apartação global”.

Não fosse a riqueza europeia, os africanos não se apinhariam em frágeis barcos, sujeitos à morte, fugindo da pobreza. Isso não seria necessário se a riqueza criada ao longo dos últimos séculos tivesse se distribuído por todo o planeta; a crise ecológica não ocorreria, se o avanço técnico tivesse criado uma economia harmônica com a natureza; o terrorismo quase não existiria se o sucesso europeu respeitasse as diferenças culturais.

“Erro do sucesso”, “Cortina de Ouro”, “apartação global” decorrem do fato de que o magnífico avanço técnico não esteve sujeito à orientação ética.
Falta um óculos capaz de mostrar a estupidez e a injustiça
do modelo seguido pelo progresso da civilização industrial.


                                                                     (Século XXI...)


(...) A Europa nega-se a dar emprego aos africanos
ou a investir em educação e empregos na África.
Prefere barrá-los no outro lado do Mediterrâneo
 ou deixar que morram afogados na travessia.
Seus dirigentes reúnem-se para descobrir como barrar os africanos,
como devolvê-los à asfixiada África.

Não adiantará a construção de uma “Cortina de Ouro” separando pobres e ricos;
os pobres migrarão de qualquer forma:
morrerão no caminho, desmoralizando a moral cristã dos ricos,
ou inundarão a Europa comprometendo o modelo europeu.

A saída é uma mudança de ótica que leve a uma nova ética (...)  
para reorientar o progresso global, distribuindo seus benefícios com a África,
como os EUA fizeram para reconstruir a Europa depois da Segunda Guerra.
















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