Desanimo.

(...) eu - com 78 anos! - não sou velho!
Mas como quem sabe de mim sou eu; ele, o meu eu (ou pelo menos um dos seus múltiplos sujeitos), me afirma e confirma a velhice. Como? Pela impossibilidade de descer a escada (...) sem segurar no corrimão. Meu equilíbrio, o qual, nos meus jovens 60 anos, me permitia lidar com três objetos ao mesmo tempo, tal como os artistas de circo ou os pugilistas de filmes pornográficos, sumiu pelos neurônios do meu cérebro.
Afora essa e outras impossibilidades impublicáveis numa crônica, chega à minha mente (uma entidade muito mais complexa que o meu mero cérebro) um total desânimo e, confesso um intenso desejo de sair do palco.
Não de morrer, propriamente, com todos os ritos e rezas (que espero não ter), mas de ficar no meu canto, porque eu olho pra rua e só vejo ruína, desespero, incompetência, descaso, insulto, mentira, malandragem e desonra.
Uma das sensações mais claras do fim de uma existência é descobrir que o drama no qual você entrou como um ator não convidado - pois ninguém escolhe onde vai nascer ou se deseja nascer - não funciona porque a companhia teatral, o diretor, o contrarregra, o produtor, o ator principal, e parte da plateia estão liquidando com a peça.
No caso, com o Brasil.
O Brasil que eu pensava que ia deixar de ser um ninho de ratos para ser um lugar razoável para se viver.
Essa sensação de estranhamento e de desentendimento com o mundo é um sintoma claro de que não há mais nada a representar ou, pior que isso, de estar fazendo o papel de idiota ou, como dizem alguns ex-amigos, de reacionário.
(...). Sou de uma geração caracterizada por uma mudança cosmológica.
Para nós, "esquerdistas", o futuro não seria mais comandado pela religião e pelas compensações do outro mundo, mas pela política, a qual transformaria (por bem ou por mal) esse mundo. (...).
O sonho permanece, como todas as ilusões - nem o velho Freud viveu sem elas.
A questão é descobrir que depois dos males do império, da escravidão, da velha república reformada em Estado Novo, enfim do domínio da "direita entreguista e reacionária", tudo continua no mesmo lugar, agora sob o sol amarelo da "esquerda" petista. Essa esquerda que rejeitaria os sindicatos, que "não roubava nem deixava roubar", mas que - no poder - emasculou-se justamente pelo saque aberto da coisa pública, em nome de um republicanismo pervertido.
O centro da crise moral que conduz à morte dos valores que nos tornam humanos e nos salvam, justamente porque demandam tudo de cada um de nós naquilo que se chama de crença, honradez, fidelidade, trabalho e esperança, jaz justamente na depravação de que a nossa história não dependeria de nós. (...).
(Roberto Damatta)
















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