O discurso honesto.
Da figura eleita.
(Em um país fictício ).





Texto de André J. Gomes.
Publicado na Revista ‘Bula’  (http://www.revistabula.com/))


Diz a lenda que num país distante, em algum tempo entre o hoje e o anteontem, um povo alegre e amoroso esperava com ansiedade por um evento histórico: após uma vitória apertada nas eleições para a presidência de sua terra, uma destacada figura política estava prestes a fazer seu primeiro pronunciamento em cadeia nacional.
Em todos os lares e bares, os televisores ligados aguardavam a transmissão ao vivo. Veículos de comunicação deixaram todo o seu efetivo a postos. Os portais de notícias registravam recordes de acesso. Milhões de almas esperavam com apreensão as primeiras palavras de quem agora estaria no poder de suas vidas. A pessoa alçada ao cargo mais alto da nação estava pronta para falar. E falaria aos que ganharam e aos que perderam. Celebraria com os que o escolheram, confortaria os que o queriam longe. Falaria ao povo que andava dividido e agora voltava a ser um só.
E começou seu discurso assim:


Prezada gente desse lugar!
A esperança venceu o medo. Nós ganhamos!
Do fundo do meu coração, obrigado!

A cada um que me assiste e me ouve, vai aqui a minha gratidão. Eu agradeço a confiança. Vocês depositaram em mim os seus mais profundos sonhos. Acreditaram nas minhas propostas, discutiram a minha história e a minha competência em casa, no trabalho, nas escolas e nas ruas. Desfizeram até amizades, parcerias profissionais, namoros, casamentos e outras relações pela simples discordância com aqueles que preferiram os meus adversários. E agora nós conseguimos!
Durante meses, nosso único e maior assunto foram as eleições que, graças à boa vontade de vocês, eu venci. Nós chegamos lá! E isso só foi possível porque vocês é, vocês compreenderam a necessidade urgente de uma reforma política radical, de um pulso forte na economia, da ampliação dos benefícios sociais existentes.
Ao me escolherem presidente do nosso país, vocês entenderam a emergência de combater a corrupção em todo canto, dizimar os cargos de confiança, os favorecimentos e os privilégios que só enfraquecem os cofres públicos. Apostaram comigo na exigência de aumentar o salário mínimo e o poder de compra dos trabalhadores, diminuir a violenta carga tributária que inviabiliza o crescimento. E a vitória é nossa!
Com a verdade de sua vontade soberana, o voto de cada um de vocês foi decisivo para darmos início a uma série de medidas que transformarão a nossa realidade sofrida, reduzirão a dívida pública e trarão os recursos para revolucionarmos a educação e a saúde gratuitas! Porque educação e saúde são os alicerces de uma nação rica e vencedora.
E a indústria? O apoio do empresariado foi imprescindível ao nosso triunfo. Agradeço também. Agradeço a essa gente que dá emprego e ajuda o país a crescer. Essa gente que merece o meu empenho de volta. Merece novos subsídios e programas de crédito para prosperar e evoluir cada vez mais.
Aos artistas, ah… esses foram decisivos. Seu apoio luminoso, seu charme e sua inteligência influenciaram a escolha de milhões de admiradores. A eles vão o meu aplauso comovido e a minha gratidão absoluta.
Para os homens, mulheres, jovens, velhos, gente de todos os cantos e todos os jeitos que votaram ou não em mim: nós conseguimos! Venceu a coragem do povo atento, crente em todas as transformações que faremos a partir de agora. Porque o nosso povo merece viver bem! E nós vamos trabalhar dia e noite para realizar o melhor.

Começa já um novo tempo!
Agora, se vocês me perguntarem
como é que eu vou fazer tudo isso,
a resposta é muito fácil:

EU NÃO SEI!
POR FAVOR,
NÃO ME FAÇAM PERGUNTA DIFÍCIL!”


De onde menos se espera daí é que não sai nada.”
                                                    
                                          “Barão de Itararé” (Apparício Torelly. 1895-1971).



















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