“ É preciso abstrair-se da vida.
Para viver. ”


                                                        “ Adoro esta frase do título, que não é de nenhum filósofo grego, mas de Sérgio Buarque de Holanda, no livro ‘Raízes do Brasil’.  Abstrair-se da vida é criar um vazio de silêncio entre o que se vê e o que é visto, como ‘O Grande Pinheiro’, de Cèzanne, que encontra no MASP; podemos olhar cem vezes para a pintura e, a cada momento, ela será distinta. 
Abstrair-se da vida é criar um vazio de silêncio para percebê-la na plenitude.
Mas como? (...). Abstrair-se da vida é o que ocorre quando, de verdade, amamos. Parece que deixamos de existir, entramos num vago, num repouso do estar-no-mundo. Parece que criamos, com o outro, uma terceira criatura que, feita de névoa, se desfaz.  Desfaz-se, mas permanece na memória não em forma do vago ou da névoa, mas como realidade.
Abstrair-se da vida é o que me apontou um motorista de frete que veio entregar uma encomenda em meu escritório. Um homem sem dotes intelectuais, mas vigorosamente perceptivo. Ao contemplar, nas paredes, colagens em relevo do poeta Ferreira Gullar, bradou: “Que vazio enorme este homem deve ter dentro de si para poder inventar todas estas formas, todas estas cores”.
Abstrair-se da vida é perceber o vazio enorme que deveríamos ter dentro de nós, desde os bancos escolares. Vazio em que o professor passasse a ser um inventor de roteiros, um “possibilitador” de descobertas para que o aluno revelasse potencialidades insuspeitas - tantas vezes esmagadas pelo caráter repressor das circunstâncias que o cercam.
Abstrair-se da vida é criar um vazio de silêncio entre o que se vê e o que é visto, como quando visitamos um museu. Cada obra de arte ou objeto exposto nos convida a olhá-lo, a partilhar dele, a se entregar a ele, permitindo que o objeto inanimado ganhe um vislumbre novo, a cada dia, em cada visita. O ‘Grande Pinheiro’, tela de Cèzanne no MASP, pode ser vista cem vezes e, a cada vez, será diferente da outra; o quadro, de certa forma, muda, porque muda o mundo e mudamos nós também.
Abstrair-se da vida é o que propiciou o inventor teatral Bob Wilson, ao tirar dramaticidade do nada, recentemente na Cidade das Artes, no Rio. Fez uma representação praticamente de silêncios, luzes, pequenos movimentos, esgares, sem classificar as coisas por palavras, por símbolos ou por gestos, num notável universo de formas de se comunicar. A linearidade do texto desapareceu e a luz propiciou com que a repetição das mesmas palavras fosse apresentada em uma, duas, cinco formas distintas. Afinal, a palavra só existe dentro de sua circunstância. Ouvimos ou pronunciamos uma mesma frase tantas vezes na vida e, no entanto, dependendo de quem fala ou de quem ouve do momento em que a vivemos, a palavra é pronunciada ou compreendida de outra forma.
Abstrair-se é perceber como a música, por mais que seja executada fora, é dentro de nós que ela passa a existir, seja num concerto ou numa matinha. Como o relato que fez o pintor Luiz Zerbini de um passeio com sua filha no livro ‘Amor, Lugar Comum’: “Seguimos quietos pelo rio, quase sem remadas. Ouvindo os silenciosos barulhinhos do mato. Interferir o mínimo. Só se necessário.” (...).
Abstrair-se é criar este vazio para que inúmeras e distintas compreensões para o tato, olfato, visão, audição e não apenas o excesso da visão nos dias atuais predomine.  Acima do óbvio virtual, tanto na realidade acordada quanto na realidade do sonho.
Uma namorada, de quem amava o aroma, dizia-me me que o aroma não estava nela, mas dentro de mim.
Ela tinha razão.

(por Leonel Kaz).


Imagem: ‘O grande pinheiro’ (Cèzanne, 1885) in







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