A Casa é Sua

  (Foto: Magnus Mårding)


Não me falta cadeira. Não me falta sofá.
Só falta você sentada na sala. Só falta você estar.
Não me falta parede. E nela uma porta pra você entrar.
Não me falta tapete. Só falta o seu pé descalço pra pisar
Não me falta cama. Só falta você deitar.
Não me falta o sol da manhã. Só falta você acordar.
Pras janelas se abrirem pra mim.
E o vento brincar no quintal. Embalando as flores do jardim.
Balançando as cores no varal.

A casa é sua. Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça. Porque você demora.
A casa é sua. Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais. O peso desse relógio.

Não me falta banheiro, quarto. Abajur, sala de jantar.
Não me falta cozinha. Só falta a campainha tocar.
Não me falta cachorro. Uivando só porque você não está.
Parece até que está pedindo socorro.
Como tudo aqui nesse lugar.
Não me falta casa. Só falta ela ser um lar.
Não me falta o tempo que passa.
Só não dá mais para tanto esperar.
Para os pássaros voltarem a cantar.
E a nuvem desenhar um coração flechado.
Para o chão voltar a se deitar. E a chuva batucar no telhado.

A casa é sua. Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça. Porque você demora.
A casa é sua. Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais. O peso desse relógio.

                                        (Arnaldo Antunes).



Imagem: Carl Larsson (1853-1919). Pintor sueco.









Nenhum comentário:

Postar um comentário