Por que cheiramos livros?
                                                                                        A experiência sensorial do livro e o prazer de ler. Desde que me entendo como leitor cumpro este ritual: antes de ler um livro abro-o calmamente e cheiro. Todo leitor que se prese já cheirou algum livro. Há quem entre em livrarias apenas para dar uma boa fungada entre as páginas de um calhamaço. Alguns preferem o cheiro de livros novos, outros de livros antigos e empoeirados. Mas afinal de contas, por que cheiramos livros?
Este é um dos grandes mistérios da humanidade. Um ato que repetimos pelo prazer, sem preocuparmos com os motivos que nos levam a amar o cheiro de livros. Isso conforta e nos prepara para a leitura, especialmente dos livros maiores ou mais difíceis. Cheirar as páginas de Guerra e Paz, da Divina Comédia ou das Crônicas de Gelo e Fogo é uma espécie de fôlego inicial antes do mergulho.
Acredito que cheiramos livros como parte do processo de memorização. Toda leitura é um ato de envolvimento corporal em busca de aprendizado. Mesmo quando lemos casualmente, a leitura se mostra um ato de compreensão, conexão e entrega. Precisamos manter um capítulo em mente para passarmos ao capítulo seguinte, precisamos manter frescas as sensações da trama para chegarmos ao desfecho da história. E mesmo assim, muitas vezes após terminarmos um livro, só conseguimos recordar de alguns pontos chaves. Nossa memória é intrinsecamente seletiva e falha. O cheiro do livro funciona como uma âncora entre a realidade e o mundo construído página depois de página. O cheiro, o peso, a textura do livro, tudo isso funciona como um farol que nos faz lembrar momento em momento que estamos aqui, dentro do mundo real, e ainda assim em Hogwarts, Nárnia ou em Westeros. O cheiro é só uma parte deste mecanismo.
Mesmo que muita gente ache que livro tem sempre o mesmo cheiro, eles são compostos de materiais diferentes. Papéis de variadas gramaturas, cola, costura, tinta, capa de tecido ou couro, e a isso soma-se a poeira que se acumula nas lombadas, os dedos que correm as páginas, o tempo que permanecem fechados. É um fato óbvio, mas que acabamos por esquecer: livros são feitos de matéria orgânica. São basicamente fibras vegetais que depois de mantidas fechadas por um determinado tempo, reagem entre si e produzem um cheiro característico. Um livro parado numa estante está em constante mutação.
Li certa vez O Estrangeiro, de Albert Camus, em exemplar novo e depois em outro usado. O livro novo me pareceu virgem jamais lido por ninguém além de mim e do autor. Era uma descoberta absoluta, como se abrisse caminho por uma vereda jamais pisada. O mesmo livro usado, comprado num sebo, parecia algo diferente, quase sagrado, como um manuscrito perdido, uma bussola usada por outros tantos leitores antes de mim. O conteúdo era o mesmo, o que mudou a minha percepção do livro foi a textura do papel, a cor das páginas e o cheiro. As duas leituras foram prazerosas e distintas, cada uma me mostrou um livro diferente.
Em tempos de e-books e ascensão da leitura digital, são as experiências sensoriais provocadas pelo livro de papel que garantem a eternidade deste objeto que amamos. O livro é um objeto de impossível compreensão total e ainda assim muito simples. As duas capas servem como um muro entre o que foi dito e o que não foi. Desde o começo da história do livro, lá na Suméria de 3000 antes de Cristo, as tabuletas de argila serviam para testificar uma coisa dita. Esse processo evoluiu por outros formatos, passando pelo papiro, pelo pergaminho, o códex até chegar em Gutemberg. Já se fez livro de tudo quanto é coisa. Pedra, pau e casca de tartaruga. Escrevemos em muitos objetos, das cavernas de Lascaux até as latinhas de Coca-Cola. Mas só o livro, com capa, contracapa, orelha e lombada cabem tanto de pé na estante quanto no colo. Abertos na mesa ou dentro da bolsa.
O livro se tornou essa coisa certa, esses "objetos transcendentes" de Caetano, porque foi feito para o tato, o olfato, foi feito para o corpo. Frágeis como nós, se aquecidos a 451 fahrenheit viram cinzas nas fogueiras nazistas. Se molhados desmancham-se e apodrecem, tornando a ser o que são coisa orgânica passível de perecer. Talvez um dia no futuro nos acostumemos a ler apenas digitalmente. Recentemente testei um aplicativo que promete acelerar a leitura com palavras que se projetam na tela na velocidade de até mil palavras num minuto. Talvez aprendamos a ler como o personagem virtual do filme Ela, conectando-se a diferentes assuntos ao mesmo tempo. Seja lá o que isso será não será leitura. A leitura envolve o físico, ao virtual cabe a informação.
Livros de papel não terminam no final. Estará na estante esperando o momento de uma segunda leitura, um correr de páginas ou de uma boa e velha fungada. Bons livros ficam gravados em nós, e através do cheiro podemos dizer que deixamos uma parte de nós também gravada neles.

(Valter Nascimento. Livreiro e escritor).










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