O gol fatal.




Após a conquista do tricampeonato mundial de futebol pelo Brasil contra a Itália (1970), o sempre famoso poeta, romancista, tradutor, roteirista, pintor, editor, crítico de arte, jornalista, comunista, anticonsumista, defensor da liberdade, contestador, anticlerical, ateu e dono de outras tantas características. O grande artista em todas as áreas que se envolveu. Pier Paolo Pasolini (1922-1975) publicou em ‘Il Giorno’ um artigo em que define o futebol de poesia e o futebol de prosa. “O gol fatal”. Editou-se o texto. Foi traduzido por Mauricio Santana Dias. Publicado no jornal ‘Folha de São Paulo’ (2005). Como reagiria Pasolini, hoje, vendo a transformação dos criadores de poesia no futebol?


                                                        Há futebol cuja linguagem é fundamentalmente prosaica e outros cuja linguagem é poética. (…). Note-se que não faço distinção de valor entre a prosa e a poesia; minha distinção é puramente técnica. (…). Assim, por razões de cultura e de história, o futebol de alguns povos é fundamentalmente de prosa, seja ela realista ou estetizante (este último é o caso da Itália); ao passo que o futebol de outros povos é fundamentalmente de poesia. Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos: trata-se dos momentos de gol. Cada gol é sempre uma invenção, uma subversão do código:  cada gol é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade.  Precisamente como a palavra poética. O artilheiro de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano. Neste momento, Savoldi é o melhor poeta. O futebol que exprime mais gols é o mais poético.
O drible é também essencialmente poético (embora nem sempre, como a ação do gol). De fato, o sonho de todo jogador (compartilhado por cada espectador) é partir da metade do campo, driblar os adversários e marcar. Se, dentro dos limites permitidos, é possível imaginar algo sublime no futebol, trata-se disso. Mas nunca acontece. É um sonho    (que só vi realizado por Franco Franchi nos “Mágicos da Bola”, o qual, apesar do nível tosco, conseguiu ser perfeitamente onírico).
Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols?
Os brasileiros.
Portanto o futebol deles é um futebol de poesia
e, de fato, está  todo centrado no drible e no gol.
A retranca e a triangulação é futebol de prosa: baseiam-se na sintaxe, isto é, no jogo coletivo e organizado, na execução racional do código. O seu único momento poético é o contrapé seguido do gol (que, como vimos, é necessariamente poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individualista (drible e gol; ou passe inspirado). (…). O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é esnobada em nome da “prosa coletiva”): nele, o gol pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se o drible e o gol são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia.”




● Imagem de Inos Corradin.








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