O mundo… tecnológico.
 
 
 

 
 
 
 
 
 

  Bons tempos aqueles em que nos juntávamos em patotas para conversar. Calçadas e racinhas eram quase templos de ser feliz. Também havia lugar para papel, lápis e canetas registrando interesses, bordando bilhetinhos apaixonados. Até hoje sou viciado em Bic comum e caderneta, para rabiscar minhas pequenas relevâncias. E olhe que sou rapidíssimo nos teclados, herança do curso de datilografia e das máquinas de telex – tecnologias hoje confinadas no dicionário ou na memória dos mais velhos. Assisti à explosão da comunicação digital que apelidamos de redes sociais, um conjunto de estímulos virtuais sabiamente desenhados para orientar o consumo e a toada. Algo que encanta mais os jovens, naturalmente atraídos para as bugigangas eletrônicas vendidas como panaceias capazes de matar o tédio da vida moderna. Algo que tem apressado desnecessariamente a vida comum. Vi como fui tratado quase como uma peça de museu quando afirmei peremptoriamente meu interesse comedido por tais “modernidades”. Vi como quase todos discordaram quando eu disse que essa febre era uma boa porta de entrada para neuroses e para o isolamento social. E para doenças que ainda nem conhecemos direito, mas que começam a se manifestar e a preocupar os operadores de saúde, já atônitos e sem a menor ideia de antídotos e de gastos futuros que serão exigidos com tratamentos para as tecnopatias. Continuo acreditando que é da natureza humana a sociabilidade plena, o afeto, a contemplação, a transformação pelo conhecimento que não dispensa legados, os compartilhamentos presenciais, o dom de ouvir o outro, o prazer imenso da troca de olhares, a extraordinária comunicação contida nos gestos. Renego as tecnologias? Claro que não. Ou não estaríamos aqui, trocando informações e ideias diante de uma tela iluminada. Apenas defendo seu uso coerente, secundário, complementar, pois o papel central jamais deixará de ser nosso. Não há como fugir do fato de a inteligência artificial ser resultado da inteligência natural, sem possibilidade de ordem inversa. Quem duvidar pode aguardar sentado até ser apresentado ao conjunto de máquinas capazes de idealizar um cérebro – serve até mesmo um daqueles cérebros de azeitona. Aposto que a posteridade herdará o fóssil de um crédulo. Sinceramente, não me surpreende ver um vídeo como este que segue abaixo, circulando no mundo digital e pregando contra ele, protagonizado por um jovem. Não o divulgo como se eu tivesse razão. Apenas feliz por ver que o óbvio está óbvio.
 
● Texto do documentarista e produtor musical Heraldo Palmeira.
● (Ilustração: unplugseries.com).
 




 

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