Quando o instagram não existia.

 

                                                                        O texto é de Elias Andreato (1946). Diretor teatral e ator paulista. Designer gráfico, artista plástico e especialmente ilustrador das capas de vinil mais famosas na década de 70. Ícone daquela geração que protestava, através da arte, contra a ditadura. O texto foi postado no sitio http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br/ e originalmente publicado na ‘Revista da Cultura’. Aposentado do dia-a-dia não impossibilita que quando se sai da clausura assumida, se surpreenda com a existência cotidiana. Vendo-a se sente um E.T.. Vendo-a faz lembrar Nelson Rodrigues dizendo que: ‘ o grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota’. Fica a dúvida. Mas… Paciência. Deixemos de divagações. Compartilha-se o oportuno texto de Elias Andreato. Será idiotice, nestes tempos, ter saudade de mim? 
 
 
 
                                           Eu me demorava com mais cuidado e delicadeza no cotidiano da minha existência. Eu saía para a rua e olhava nos olhos das pessoas e tomava cuidado com as palavras para poder seduzir ou me deixar ser arrebatado por elas e por tudo. O diafragma das minhas retinas guardava os meus melhores momentos. Sempre que eu me apaixonava, queria que fosse eterno enquanto durasse... Não tinha a ansiedade de dividir com mais ninguém além da pessoa amada. Eu saía do cinema ou do teatro só com a lembrança das imagens que despertassem minha curiosidade ou estimulassem meu querer saber, como se eu fosse um grande filósofo e pensador da alma humana. Quantas vezes adormeci com a provocação de Fellini, Buñuel, Visconti, Godard, Shakespeare e Orson Welles; quando as lágrimas ou o riso inundavam o meu rosto. Eu só tinha o espelho como possibilidade de registro para eternizar as minhas angústias ou dúvidas de querer ser um ser humano melhor. Eu olhava para mim mesmo, cara a cara no espelho do banheiro, e dizia: “O que você vai querer ser quando crescer?”. Eu não tinha amigos no Face. Eu queria amigos face to face para encostar a cabecinha no ombro e chorar. Eu fumava, bebia, transava, estudava, trabalhava e ainda sonhava em transformar o mundo. Eu me indignava com a miséria, a fome, a ignorância, o preconceito e a corrupção.
Agora, tudo mudou.
Não olho para mais nada. Sou o centro de tudo. Eu me basto na solidão do meu iPhone 4, 5, 6... Me tornei um artista maior. Registro tudo, para poder provar que estive lá. Sem me importar se a minha poesia se tornou menor. O que conta não é mais a qualidade, e sim a quantidade de imagens e como sou visto, seguido e por quantos. Estou bombando! Invento o personagem que eu quiser. Sou o roteirista do meu próprio filme e ainda faço o meu fundo musical. Minha ilha de edição é fenomenal. Lanço o meu produto no mercado mostrando o meu melhor. É por isso que sou amado e invejado! É verdade que, às vezes, não tenho mais opinião sobre o que está ocorrendo no planeta. Não entendo o que estão dizendo nos livros, nos jornais e nas revistas. Só gosto das minhas fotografias. Perdão, dos meus selfies! Os velhos que me perdoem, o que importa é estar na moda! Ontem, tive um sonho antigo onde eu dizia baixinho:
                                                
   “Ai que saudade de mim!”. 




 
Imagem: Mauricio Planel.













Nenhum comentário:

Postar um comentário