A máquina de escrever...

 Mãe, se eu morrer de um repentino mal.
Vende meus bens a bem dos meus credores.
A fantasia de festivas cores que usei no derradeiro carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio.
Por um concurso num jornal do povo.
E aquele terno novo ou quase novo com poucas manchas.
De café boêmio.

Vende também meus óculos antigos que me davam ares inocentes.
Não precisarei de suas lentes pra enxergar os corações amigos.

Sem ruído é mais provável que eu alcance o céu.
Vou penetrar e então provar seu mel no paraíso só preciso de um olhar.
Sem teu sorriso, outro sorriso pra me enganar.

Mas poupa minha amiga de horas mortas.
Com teclas bambas, minha máquina de peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas que eram o meu íntimo tesouro.
 Mas não! Ainda que ofereçam ouro.
Não vendas o meu filtro de tristezas.


                                                          (Frejat - Cazuza)
 
 
 
 
 
 
 
 

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