A criação artística.
Compromisso. Liberdade.





                                     “ Em todas as formas de criação artística, a liberdade de criação e de expressão entra, pela sua própria natureza, em choque aberto com os governos opressores e as classes dominantes. Se qualquer criação é um ato de liberdade, então o artista não pode deixar de ser uma pessoa livre; e, sendo uma pessoa livre, entra inevitavelmente em choque com as grilhetas que o aprisionam e oprimem. Mas será que se é livre só pelo fato de se ser um criador artístico? Em teoria, sim. Mas, na prática as coisas são mais complicadas. Porque na sociedade em que vivemos, dominada por uma classe hegemônica que explora a força de trabalho, existe também (consequência dessa hegemonia social) uma cultura dominante. E porque essa cultura dominante, nos nossos tempos quase totalmente massificada e mercantilizada, cria inúmeras “zonas de sombra” onde não se percebe claramente se o criador, o artista, está em contradição com ela, ou se está a viver dela e é cúmplice dela. É aquilo a que, simplificando, se costuma chamar a “capacidade de digestão” do sistema dominante para recuperar para o seu lado o potencial de revolta que nasce das classes oprimidas. Esta recuperação é tão real na política como na criação artística. Os prêmios, honras e distinções, as cedências negociadas nos conteúdos e as múltiplas formas de autocensura calculada, o dinheiro e o estilo de vida a que se habituam, fazem com que muitos intelectuais e artistas, por vezes sem terem muita consciência disso, se deixem amarrar a compromissos, a hábitos ou a simples benefícios materiais que vão arredondando as arestas da revolta inicial que sentiam contra o sistema.
O criador artístico nunca tem “desculpa” para abdicar da sua liberdade de criação em nome dos limites que a classe dominante lhe quer impor. A criação artística é como a água: quando não a deixam correr por um lado, ela esgueira-se e corre por outro, faz tudo para evitar a imobilidade, o descompromisso. E quando o exercício da liberdade criativa não se consegue exercer no plano legal, o artista comprometido e ligado ao seu povo passa – como as próprias lutas – para o plano da pura ilegalidade. Não há leis nem juízes nem polícias que possam calar a sua voz. (...).
O caráter intrinsecamente libertário da criação artística restringe, de raiz, qualquer relação do artista-criador com o poder de Estado e com o poder econômico que o Estado representa. (...). É esta a dimensão ética da liberdade de criação. De toda a criação, artística e poética. Porque o criador, no momento em que cria (mesmo que apenas interpretando obras de outros), é uma espécie de representante de toda a Humanidade e do seu destino. Não pode mentir a si próprio, pretender enganar-se a si próprio, por uma simples razão: ele já não é só ele, é algo mais do que ele, muito mais do que ele. Ele é, quando cria, todos os “eles” possíveis. É por ser livre totalmente dono de si mesmo. Mas, ao mesmo tempo, não é dono de si mesmo porque se transforma em todos os seus iguais.
 

Fonte (texto/imagem): http://passapalavra.info/2009/06/4668  (01/06/2009).

 






 

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