Yes
(Um pouco mais de ternura).




 
“É tempo de parar um pouco.
Melhor ainda:  é tempo de parar muito.”
 
 
                                            Me lembro, como se fosse hoje, quando li o que o John Lennon contou sobre a primeira vez que ele viu e, conseqüentemente, conheceu a Yoko Ono. (...). Ele ainda era casado e ainda era um Beatle. Alguns amigos o levaram para a exposição da então artista avant-garde e, lá, tinha uma peça que chamou a atenção do Lennon. Era uma escada branca com uma luneta (ou uma fechadura, perdoem a minha falta de memória nos detalhes, mas continue que vai dar certo) e, ao olhar com um olho só, havia do outro lado um papel escrito “Yes”. Isso era 1966.
Até para quem não entende bulhufas de inglês entenderá que o dizer era o afável “sim”. Isso deixou o jovem John em êxtase. Ele disse, reproduzindo em minhas palavras, que havia ficado muito feliz em vez aquela obra. Isso porque seria fácil demais escrever um “não” bem sisudo, daqueles que estamos tão acostumados. Ele ficou contente porque poderia ser mais uma obra que frustrasse alguém, mais um dos bilhares de milhares de pequenos insucessos com os quais topamos todos os dias. Mas não. Era um recortezinho edificante. Você tinha certo trabalho para subir, haveria de se mexer e “trabalhar” para cerrar um dos olhos, ver através da lente etc. E, ao final, mesmo que por mais singelo, ganhava um prêmio. (...) devemos sim ser alertas, buscar fontes, sermos críticos, buscarmos a assertividade. Mas que isso não precisa ser motivo de reações mais gélidas, comportamentos mais bruscos, cotidianos mais intolerantes.
Podemos - e devemos, sempre que possível - deixar um belo “yes” como presente, um pouco mais de doçura. Não estou pedindo flores em armas, mas um sorriso de quando em quando, um pouquinho mais de elogios, de fuga do peso da realidade. Não é alusão ao LSD não, é aquele gracejo que podemos dar, aquela tranqüilidade na fala, na atenção em meio à histeria cibernética. Não entendam como um pedido para ser bobo, alegre em demasia (uma das coisas mais irritantes, certamente), positivista à toa, guru de felicidade. O intuito desse texto não é amolecer pessoas, transformá-las em propagadoras de abraços moles e despropositados. Chega a ser engraçado como parece simples. Mas o caso é que, hoje, muito mais do que naquela época, somos inundados por um mar de informação
e ruído. Somos muito mais acelerados e estamos sempre muito mais atrasados.
 humor e a leveza parecem ser artigos de luxo e nos acostumamos com isso. E não é para ser desse jeito. Os anos 10 já passaram. A nova era já é passado e, se em 2001 (o ano, não o filme) tínhamos todas as maravilhas da tecnologia, hoje temos o conhecimento e a experiência para lidar com tudo o que é novo, com tudo o que não entendemos de cara. É tempo de parar um pouco. Melhor ainda: é tempo de parar muito. Saber dar o devido tempo, ser respeitoso, abrir espaço, se colocar no lugar do outro, ter mais crenças, elogiar mais. É só dar um pouco mais de “sim” do que “não”.
 
                                                                                               “Yes” ?.

 
 
►Fonte: Jader Pires. Escritor e editor do “Papo de Homem
                (http://papodehomem.com.br/um-pouco-mais-de-ternura/)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
.

Nenhum comentário:

Postar um comentário