A caneta.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O texto ("A necessidade do outro").foi produzido pelo colunista Roberto Damatta publicado no jornal “O Estado de São Paulo” (http://www.estadao.com.br/) em 06.11.2013
Transcreve-se parte do texto. O autor registra em suas linhas um cenário vivido. A caneta marca lembranças de uma época. Chama atenção da importância do “outro” nas vidas. Vividas. Alguém perdido que por aqui pare para beber uma Jurubeba gelada. Nascida naqueles tempos. Deverá ter lembranças da importância de ter uma caneta Parker. E de tantos quantos foram os “outros” que nos ensinaram a viver. Leiam.

                                        Aos 11 anos, quando entrei no ginásio e ganhei do meu pai uma caneta Parker com meu nome gravado, senti que algo muito sério havia ocorrido comigo. Virei "ginasiano", dizia o pai que, criado em Manaus, foi um orgulhoso aluno do Ginásio Amazonense Pedro II. Naquele tempo, era comum o uso do paletó, e no seu inútil bolsinho "de fora" usava-se um lenço combinando com a gravata e, no canto do bolso, como "enfeite" e sinalizador social, enfiava-se uma caneta! Éramos um País de analfabetos antes de sermos um país de subletrados e de burros doutores ideologicamente pautados. A caneta de ouro compondo a figura do "doutor" (substituto do aristocrata) sugeria que o sujeito assinava o nome. Compreendi o significado da caneta demarcadora de minha passagem para o curso secundário quando, já universitário e querendo ser revolucionário, um colega politizado relacionou a "nossa geração" aos "privilégios" e a contrastou com os "oprimidos" sem escola que escreviam de modo hesitante, desenhando as letras, traçando-as no papel ao contrário do que manda a caligrafia clássica. Escrever "à tinta", como se dizia, era algo ritualizado que ia da escolha do papel para o que se ia dizer, pois a caneta-tinteiro borrava e sua escrita não era facilmente apagada. Escrever com a minha Parker preta listrada de dourado era fazer a passagem do transitório e barato lápis, cujas pontas gastavam e quebravam e cuja escrita não resistia a uma banal borracha, para o definitivo: para a escrita "à tinta". Que responsabilidade eu tinha quando pegava essa caneta para escrever e foi com ela que tracei as sempre mal traçadas linhas da minha primeira carta de amor. Um amor a ser tão eterno quanto a tinta e que não durava mais do que um long-play de Frank Sinatra. Ali eu vivi um inexorável sentimento de passagem do tempo. Estava ficando velho. E velho fui ficando quando alguma passagem ocorria na minha vida. Todas as primeiras e últimas vezes foram marcadas e eu só tive consciência delas porque algo ou alguém as assinalava. A sensação de transitar por várias etapas críticas do meu ciclo existencial que começou com o nascimento e o batismo; seguiu para a infância do time de futebol e da primeira comunhão; prosseguiu para puberdade dos bailes, do primeiro namoro e beijo; desembocou no casamento; foi agraciado com a paternidade e um dia virá com a morte - o evento mais crítico de todos, o qual, infelizmente, será o único que eu não vou poder compartilhar com vocês, meus queridos leitores - foi toda construída por outras pessoas. Foram todos urdidos de fora para dentro, por meio de conversas, presentes, admoestações, rituais, aprovações, elogios e reparos feitos por um outro. Acentuo esse "outro" porque sem ele eu não seria capaz de saber que tento ser simultaneamente um indivíduo autônomo e livre; e uma pessoa devedora de muitas pessoas e relações as quais despertaram os vários "eus" que convivem dentro de mim. (...) "
 
 
 
 
 
 

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