Não sou...

 
Morrer de rir. Morrer de amor. Morrer de saudades. Morrer de sede em frente ao mar. Plagiar um verso do Djavan. Nada disso me interessa. Não é que eu tenha medo da morte, é que ela simplesmente me irrita. A maldade — esta, sim — me dá arrepios, pois bem sei do inato talento humano para desgraçar com a vida alheia. Escrever a respeito da morte, além de chato, é uma missão macabra das mais inglórias, pois poucos suportam o assunto. “Melhor nem pensar nisso”, é o que se diz. À exceção dos psicopatas e dos depressivos sem conserto — para os quais a morte é excitação, fascínio e até solução — o tema provoca ojeriza, pavor, impaciência e uma necessidade incrível, inadiável, de se ter fé. É compreensível: a maioria das pessoas prefere as boas novas, as mensagens alvissareiras, a vida na sua plenitude, de preferência, estacionadas ad eternum num céu, num paraíso, numa nuvem passageira, num delírio que seja, ao lado do criador, dos santos, dos anjinhos, dos parentes que se lascaram antes da gente e dos bichinhos de estimação que já não nos lambem mais. Não sou um sábio japonês. Não sou indiano. Não sou monge budista. Não sou esotérico. Não sou santo. Não me converti, recentemente, nem por conveniência. Não sou um sujeito zen. Não sou assim tão tranqüilo, sereno e equilibrado quanto vocês supõem. Aliás, sinceramente, neste momento, não sou sequer uma boa companhia. Dentro de mim, um daqueles bombardeios que têm pipocado sobre civis em Damasco pareceria um bando de crianças divertindo-se com revólveres de espoleta. (...).

 
Fonte: “Nunca durma com pessoas que não sonham”. Texto do médico e escritor Ebert Vencio .
                  Publicado no sitio: http://www.revistabula.com/author/eberth/


 

 
 

 

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