Da privatização da cultura
O texto é de Marcos Guedes. Ensaísta e professor da Universidade Federal de Pernambuco. Publicado na ‘Revista Continente Multicultural’ (www.continentemulticultural.com.br).
Encontrou-se em: http://www.portalartes.com.br/

Algumas das maravilhas da arte universal colocam
sérias dúvidas quanto ao dogma da privatização da cultura.”

                                                        
                                                                  " Eis a máxima dos ideólogos da chamada Terceira Via, o remédio para todos os males da sociedade global. O modelo público de financiamento da cultura jamais esteve tão ameaçado. Depois da privatização dos serviços de infra-estrutura, sonha-se com a educação apenas como negócio. Logo chegará a vez do sistema público de cultura: arte, museus, monumentos, tudo será competentemente administrado pelas elites esclarecidas e empresários conscientes de seu papel de vanguarda cultural. Em vez de prédios históricos em estado precário administrados por um número exagerado de funcionários públicos, em vez de museus sujos, sem recursos para promoções e aquisições e considerados apenas um cabide a mais de empregos pelos inumeráveis políticos corruptos do Brasil, a privatização será a solução. Afinal, os nossos cinemas não dão tanto lucro. Por que não incutir o interesse por outras formas de cultura na população? Quem se oporia a um empresário com uma visão aberta a ponto de comprar um forte antigo, um bairro histórico, ou uma casa grande e mantê-los como um importante centro turístico gerando lucro e impostos para o Estado? Por que não fazer da História uma empresa? Os argumentos podem ser os mais convincentes, contudo a realidade pouco segue a lógica. Algumas das maravilhas da arte universal colocam sérias dúvidas quanto ao dogma da privatização da cultura.
( ...).
É inevitável a idéia de usurpação da memória histórica (...).
Imagine um destes milionários comprando o Cristo Redentor e fazendo-o a logomarca de sua empresa, ou criando nas suas entranhas um museu dedicado aos seus avôs. Se Paris fosse engolida pelo fogo e restasse o Palácio Garnier e o Louvre, toda a beleza poderia ainda ser reconstruída. Retrato da megalomania de Napoleão, a casa de ópera no coração da cidade não é apenas o mais belo prédio do mundo. Ela como o Louvre e muitos outros espaços culturais na França, nos oferece um segundo exemplo. Mostra como deve ser a adequada combinação entre o bem público e a sua função de gerar renda. Ao lado do cuidado com a manutenção da História, existe a preocupação com o compromisso e a geração de renda. Nada é de graça. Se paga para entrar, embora menos que nos museus em Londres. Na França, os espaços continuam públicos e administrados cada vez mais como privados. A necessidade de se autofinanciar está ainda combinada com o impacto que os monumentos exercem no fluxo turístico e na sobrevivência econômica da cidade. Um dia em cada mês do ano, o Museu do Louvre e todos os outros são gratuitos. Todos continuam com o direito à cultura. Pelo menos uma vez ao mês. No Brasil vivemos num paradoxo. Embora a manutenção da cultura seja considerada pública; como tudo que chamamos de público, neste país, ela é de fato privada. Onde a diferença entre o privado das elites e o público é pouco relevante. Incontáveis são os monumentos destruídos, contrabandeados, corrompidos por indivíduos que se aproveitam para literalmente se perpetuarem à frente de instituições mortas, apropriarem-se dos objetos ou simplesmente destruí-los, criarem fundações para promover empresas à custa dos incentivos culturais. Longe dos modelos franceses e ingleses, nossa máxima é ainda modernizar, sem mudar. "







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