A não tolerância: o grande desafio humano
 
 
 
 
Leiam sobre o desafio que o paulista Gilberto Miranda Junior nos apresenta. Não é fácil. O texto foi publicado originalmente no sitio “Repositório Filosófico”. Foi encontrado em http://www.hierophant.com.br/arcano/posts/view/Yoga/1276
Querendo ler mais Gilberto Miranda acesse seu blog: http://blog.gilbertomirandajr.com.br/
Leiam:

Ouvi/li em algum lugar que solicitar tolerância é tão preconceituoso quanto a discriminação. Faz muito sentido isso, pois quem precisa tolerar já se coloca em situação superior ao outro, inferioriza-o, como se dissesse: “olha, você é menos que eu, mas não se preocupe, magnânimo que sou, eu te tolero, ok?”
Esse é um exemplo curioso de como uma palavra que pretende mudar paradigmas e inverter o vetor do preconceito, acaba reforçando-o sem que seu uso fosse nesse sentido.
A grande ambigüidade aqui se situa numa questão de Lógica Hermenêutica. As palavras isoladas em seus conceitos mais comuns, ou em definições estritas, não refletem os sentidos que podem acrescentar ou até modificar seus significados. A rigidez de definições “esquece” e impede a dinâmica da língua, dos afetos, da ampliação horizontal e perspectiva (e não apenas vertical e progressiva) do conhecimento e das visões de mundo. Dialogar efetivamente, como nos ensina Habermas, é uma questão de Agir Comunicativo. Há de se compartilhar certa idiossincrasia ou aprendermos, via empatia, nos colocarmos na perspectiva alheia para dialogarmos.
Porém, a tentativa de uma ampliação horizontal ofende quem se acha detentor de uma única verdade e do discurso hegemônico baseados em conceitos que crêem serem metafísicos, embora não sejam. E é nessa ofensa que os dogmáticos (embora muitos não assumidos) se policiam para “tolerar” o semelhante. Porém ao exercer essa hipócrita tolerância, continuam excluindo e discriminando. Todo aquele que não comunga da visão de mundo e dos rígidos conceitos pelos quais os dogmáticos erigem seus castelos axiomáticos e determinantes do mundo, não pode compartilhar o mundo com eles.
Se o mundo pode ser melhor do que é, ou do que foi, só poderá ser quando abrigarmos a diversidade para além da mera tolerância. O grande desafio humano talvez seja aprendermos a nos destituirmos de nossas certezas (e não de nossas verdades) e nos abrirmos para a diversidade das verdades possíveis, procurando o consenso prático que abrigue a complexidade intrincada da qual o próprio mundo parece ser composto.
Pode parecer utópico, mas que ao menos possamos perceber o quanto destituído de sentido são certas coisas que querem nos fazer engolir como se fossem dados reais do mundo, mas sem que consigam sequer demonstrar sua validade sem que tenhamos que assumi-las dogmaticamente.
Há de se tomar cuidado quando falo sobre nos destituirmos de nossas certezas, mas não de nossas verdades. Na verdade chegará a hora de nos destituirmos de tudo. Considero a Verdade aquilo que chegamos dentro de um contexto de justificação compartilhado e convincente, portanto é algo que precisa resistir até que esse contexto de justificação possa ser questionado. Já certezas dispensam justificação compartilhada, logo não se sustentam em nenhum contexto. Assumir uma Verdade, não é ter certeza que ela seja verdade, é assumi-la como norte para nossas escolhas enquanto elas justificarem esse estatuto de verdade.
Todo ato de tolerância é uma concessão. Quando somos obrigados a tolerar de mentiras, hipocrisias, leis e a arrogância das pessoas há uma situação distinta a meu ver. Mas em que sentido essa distinção se dá? Não escolhemos tolerar a hipocrisia por nos acharmos hipócritas. Escolher tolerá-la porque nos colocamos acima dela. Não toleramos as leis porque, necessariamente, concordamos com elas. Sentimos a necessidade de tolerá-las justamente porque há uma prescrição punitiva a favor de seu cumprimento. Curioso é que não gostamos de admitir isso. Achamos um ato bonito tolerar, mas não aceitamos o corolário dele: colocarmo-nos em um nível apartado daquilo que vemos necessidade de tolerar.
O que trago é a discussão sobre o acolhimento do outro em sua diferença. E isso não requer tolerância nem concessões de nossa parte; como se o outro só pudesse ser o que é porque permitimos isso. Eu não quero tolerar ninguém. Mas isso não significa ser intolerante: significa não fugir à responsabilidade de buscar consensos onde for possível, mesmo que esses nos obriguem a “flexibilizar” nosso códice de valores tão arraigados.
Se realmente precisamos aprender a conviver com a diferença e a respeitá-la, parece-me que o conceito de tolerância apenas minimiza a diferença, tenta abafá-la… Parece-me um “deixa pra lá” que é improdutivo para a pretensão de busca de consensos e crescimento mútuo entre as pessoas, nações e grupos étnicos ou religiosos.
Tomar a tolerância como dispensável, contudo, não significa pregar ou ser favorável à intolerância. Tolerância é segregação. Por que devemos tolerar? Por que não nos conspurcarmos no que não concordamos, assumirmos provisoriamente seus pontos de vistas, criticarmos e nos autocriticarmos? Para mim isso é sinônimo de respeito (res-pecto, do latim: levar em conta). Quem tolera não leva o outro em conta, apenas se livra de aborrecimentos.
Esse grande “deixa pra lá”, esse não enfrentamento, é uma eliminação da alteridade necessária ao convívio, ao respeito mútuo, à igualdade de direitos e à evolução coletiva. É, na verdade, uma reivindicação sem legitimidade do direito de “permitir” a existência do outro, mas jamais se abrir ao outro nos isolando em feudos.
Construir um valor ético que privilegia a diversidade é abolir a intolerância, dispensar a tolerância e aprender a dialogar. Isso nos traria como conseqüência acolher a diversidade, abrir-se a ela, procurar entendê-la desde sua idiossincrasia e se deixar conspurcar por referências que não são suas, mas que podem, inclusive, serem contrárias e te mudar.
Não é um grande desafio?  
 
 
 
 
 
 

 

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