A Brasileira Natureza.
Fotos do inglês Steve C.. Sabem onde ele as fez? No zoológico de Caughall.
Na Inglaterra.
Como será que estes animais deixaram as matas brasileiras?
Esqueçamos.
Admirem-se com a beleza incrível deles. 



Papagaio da Cabeça Vermelha



Arara Azul





























Vittorio Matteo Corcos
(1859-1933)
O artista italiano de Livorno foi até o inicio do século XX um destacado pintor retratista europeu. Suas obras retratavam as cenas da vida moderna especialmente em Paris e da beleza feminina. Retornando a Itália torna-se um grande destaque no mundo cultural florentino e entre a aristocracia italiana. Encantamento imediato vendo suas obras obrigou-me a compartilhar Vittorio Corços neste espaço virtual.























Arriscar é Viver.
Este livro deveria ser lido por muitos dos “esquerdistas” de minha geração. Um agradável romance de linguagem simples que vai revelando em suas páginas os tristes bastidores do fim do comunismo na Europa. A vida na 2ª Guerra e os efeitos que o nazismo deixou nas pessoas do leste da Europa. Foi escrito pelo inglês Jim Powell (1949) que escreve seus livros à mão usando caneta-tinteiro. Fez de tudo um pouco em sua vida até office-boy dos Beatles conseguiu ser. Este livro (‘The breaking of eggs’) narra a vida de um ex-comunista. Ou como sempre diz repetidamente, o personagem: apenas um “esquerdista”. Ele é polonês vivendo em Paris e escreve um guia turístico sobre os países do Leste Europeu. No texto ele vai mostrando as transformações daqueles países após o fim da União Soviética. O romance do Jim Powell mostra a política e suas conseqüências nas relações familiares. Mostra, enfim como foi ludibriado. As mudanças de suas posições pessoais e ideológicas. Como sempre. Descobre – enfim - que tudo é uma grande ilusão. O livro nos faz ficar grudado nele sem vontade de parar de ler. Você que está passando por aqui e resolveu beber uma jurubeba gelada. Se puder. Dê uma lida neste livro. Afinal. A vida. É mesmo um risco. Ah! Ia me esquecendo. Não foi somente o personagem do Jim Powell que foi ludibriado...

















Dificil.Acreditar que seja verdade.Mas...


































A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional...



                                                      Definitivo



Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos,
por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres que deixamos de ter
para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que poderíamos estar
confidenciando a ela nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional...



(Carlos Drummond de Andrade.






























Libidinosos e indolentes
Em entrevista dada a jornalista Roberta Jansen (roberta.jansen@oglobo.com.br) no jornal ‘O Globo’ (em 26.05.12) o historiador Jean Marcel Carvalho França comenta sobre a imagem do brasileiro e do Brasil no exterior criada pelos viajantes estrangeiros e posteriormente perpetuada por nós – brasileiros. Verdadeira ou não. Aceitaram. Jean Marcel após vasta pesquisa está lançando o livro “A construção do Brasil na literatura de viagem”. Ele reúne neste livro o relato de viajantes ingleses, franceses, alemães, italianos e holandeses que estiveram por aqui entre 1591-1808. A entrevista é bem elucidativa para quem quer conhecer este país. Compartilha-se com vocês. Leiam:
 
O GLOBO: Qual a imagem do Brasil e dos brasileiros que emerge dos relatos de viagem?
JEAN MARCEL CARVALHO FRANÇA: Os relatos são muito repetitivos, respondem a um mesmo padrão. A repetição é valorizada nesse tipo de relato. Viajantes tendem uns a lerem os outros, formando uma espécie de discurso único. Desse discurso vai emergir um Brasil bastante característico, que varia muito pouco ao longo desse período. De um lado, temos uma natureza, sempre muito pródiga, um solo promissor desde que devidamente explorado, um clima que não impõem o rigor da Europa. Com essa natureza pródiga, um clima ameno, há condições para uma vida agradável, economicamente boa. Por outro lado, aparece a grande mácula do Brasil: o colono. Ele é preguiçoso, não tem apreço pelo trabalho, é dado à luxúria, é ciumento. Isso faz com que a terra, tão pródiga, seja inexplorada, não renda o que poderia render. É a natureza pródiga contra o colono sem muitas virtudes.
G: A noção de paraíso é recorrente?
JMF:  - Isso é muito forte na literatura do século XVI em algumas partes da América. O Sérgio Buarque de Holanda, estudando relatos da América como um todo, cunhou essa idéia. Mas, se pegar os relatos do Brasil, essa noção de paraíso aparece indiretamente nos relatos de (Américo) Vespúcio (se há um paraíso, é o mais perto que se pode chegar). A migração da idéia do paraíso bíblico para a América praticamente não aparece nos relatos referentes ao Brasil. E os textos que falam da colonização, já lidam com essa ambigüidade do solo pródigo e o colono que não trabalha. Há sempre esse contraponto entre o bem feito da natureza e o mal feito dos homens.
G: Terra boa e colono ruim, preguiçoso, libidinoso. Até que ponto nós mesmos perpetuamos essa imagem?
JMF: - Esse é um fator muito importante, talvez o mais importante do livro. Quando formamos nossa cultura ao longo do século XIX, nós importamos na formação de nós mesmos uma série dessas ideias. Homens de cultura, de formação européia, viajantes que passaram posteriormente pelo Brasil já trazendo ideias dos viajantes anteriores, como Debret, foram professores de vários integrantes da primeira elite intelectual brasileira. Eles tiveram uma influência enorme e incorporamos essas ideias na definição que fazemos de nós mesmos. Às vezes é sutil, às vezes tem o sinal invertido. Mas o fato é que certas características atribuídas a nós tiveram vida muito longa em nossa cultura.
G: Como se deu esse processo?
JMF: - O conceito de civilização do século XIX é uma idéia de civilização européia. Romances do século XIX, por exemplo, mostram o povo pouco trabalhador, dado a vícios, que precisa ser europeizado. Os romances são pedagógicos, ensinam a ser um cidadão civilizado para que não se caia na barbárie. Romances do Jorge Amado perpetuam estereótipos da literatura de viagem, como a sexualidade do povo, uma marca muito forte, ou o que chamam de luxúria, os excessos da carne, as mulheres promíscuas, a moralidade fluida no que diz respeito ao sexo. Algumas dessas marcas surgem com sinal invertido, como a mestiçagem positiva em Gilberto Freyre. O que nós somos, em parte, foi formado fora daqui. Uma parte de nossa auto-invenção nos escapa, foi inventada em outro lugar, na Europa, ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII.
G: Mas por que especificamente essa imagem do sujeito preguiçoso, libidinoso? Há como sabermos até que ponto isso corresponde à realidade?
JMF: - Há uma larga tradição de dizer que se trata de uma visão eurocêntrica. Óbvio que é eurocêntrica; se fossem viajantes chineses, seria sinocêntrica. E quando vamos a Portugal, levamos nossa visão brasilocêntrica. Mas podemos contrastar com outras perspectivas. Os relatórios de jesuítas também apontam excessos na questão da sexualidade, mas isso tampouco quer dizer que sejam verdadeiros. No fim, isso não importa. O que importa são as impressões sobre o real. Nesse espaço, as narrativas são muito poderosas na formação do senso comum sobre os brasileiros.
G: De que forma?
JMF: - Somos uma democracia racial de índios, negros e brancos? Não sei. Mas o fato é que esta noção é absorvida até por comercial de cerveja. É verdadeira ou não? É um pouco tarde para isso, já agimos como tal. A cultura não é uma busca por justiça e verdade. Não é iluminista. São verdades brigando para se imporem umas às outras. E quando uma se impõe e a absorvemos, ela ganha estatuto de verdade, se torna importante na formação da cultura. Quando falo da construção do Brasil, correspondendo ou não à realidade, existe um impacto de como os europeus e nós mesmos vamos lidar com isso; essa verdade condicionou nossas ações, começamos a agir daquela forma efetivamente. Agora, poderíamos nos perguntar: essas ideias têm um lastro no real? Lógico que têm. Se fossem de ponta-cabeça, nossa perspectiva do mundo seria outra.
G: O europeu ainda tem essa imagem do Brasil? E nós?
JMF: - Não completamente. Há perdas, mudanças, transformações. O jogo hoje é um pouco diferente. O Brasil não é um país semibárbaro, temos uma presença no mundo, um futuro promissor. Mas há traços profundos. Outro dia, vi uma matéria numa revista de turismo americana muito bem editada, com boas fotos. Mas ela tratava o Rio de forma similar a uma narrativa do século XVIII, sobretudo no que dizia respeito à sexualidade das mulheres cariocas. O texto dizia que era certeza o homem ‘se dar bem’, que as mulheres adoravam ‘se atirar aos estrangeiros’ e que eles, na verdade, teriam dificuldade de escolha.
G: E qual era a imagem dos portugueses a respeito dos brasileiros? Por que os relatos deles ficaram de fora do livro?
JMF: - Deixei propositalmente de fora. Primeiro queria falar da construção do Brasil pelos estrangeiros; e, agora, pela literatura portuguesa no mesmo período. Pelo menos 80% dos textos em que há menções ao Brasil são sermões, panegíricos fúnebres, textos dessa natureza. A maior parte só foi publicada uma única vez, em edição simples, e não teve circulação grande. Por isso, o impacto da literatura de língua portuguesa sobre imaginário europeu é mínimo, mesmo sobre os próprios portugueses.
G: Mas a carta de Caminha não seguiria um pouco a tradição dos relatos dos outros europeus?
JMF: - De certa forma. Não tem paraíso, têm clima ameno, natureza verdejante, algumas impressões parecidas. Mas não chega aos pés das primeiras impressões do (Cristóvão) Colombo, que viu uma série de coisas mais reluzentes, como sereias. Era um cara culto, que projetou o que tinha lido. Caminha era um escrivão da armada, não um cara culto, não tinha muitas referências.
G: Esses relatos influenciam a própria literatura, como Robson Crusoé. Isso ajuda a propagara as imagens?
JMF: - Claro, até porque, muitas vezes, creio eu, o leitor não distingue uma coisa da outra. Vai ler o Robson Crusoé como outro relato qualquer.
G: Como os relatos influenciam os europeus, que passam a se ver em contraste a um povo sem violência, com possibilidades morais novas?
JMF: - A bibliografia sobre o impacto da América no Velho Mundo é enorme. Mas há, basicamente, duas vertentes. A continuista sustenta que as bases da cultura européia estão na Idade Média e em seus desdobramentos, mas que a América tem pouco papel. Uma segunda vertente acha que não, que essa influência é decisiva e muda o panorama do pensamento europeu. Segundo essa linha, a Revolução Francesa só foi possível porque a América introduziu a idéia de liberdade, um  conceito que veio das comparações.
G: Que tipo de comparação?
JMF: - Como o europeu via o índio? Como um bárbaro. Mas, ao mesmo tempo, como integrante de uma sociedade igualitária, em que todos tinham comida. Essa comparação moldou o imaginário de contestação da Europa. A América diversifica o mundo, o mundo passa a ser outro depois da América.
G: O Novo Mundo foi inventado pelos olhos do Velho Mundo?
JMF: - Filhos tortos ou não, somos filhos da cultura ocidental. Podemos reclamar nossa singularidade, mas somos filhos dessa cultura. 

























A sensibilidade dos brasileiros.
Este texto é da norte-americana Flora Thomson-Deveaux. Encontrou-se publicado no jornal Folha de São Paulo (de 24.05.12). Ela estuda lá na Universidade de Princeton o idioma português e espanhol. Passou seis meses no Rio de Janeiro fazendo pesquisa sobre a música popular carioca da década de 20, tomando aulas na PUC, e escrevendo o blog “Questões Estrangeiras” para a revista “Piauí”, editada pelo jornal citado. Num trecho de seu texto a Flora registra uma triste realidade que nos angustia desde muito tempo. Visite uma livraria (se encontrar) neste país tropical. A estante de livros nacionais é sempre bem menor daquelas que expõe livros estrangeiros. Livros estrangeiros são de fácil acesso. Ao lê-los.  Nada tem de melhor do que muitos dos nossos. Faça uma experiência. Procure nos sebos livros de autores nacionais. Não os medalhões. Você encontrará obras de real valor. As histórias tendo ao fundo cidades norte-americanas e nome de ruas e bairros em inglês. São expostas a venda. Vendem. As histórias nas ruas e cidades brasileiras. Difícil encontrar. Expor autores brasileiros. Para que? Esqueci. Os de auto-ajuda e autores religiosos. nacionais. Como vendem. Interessante, para não se dizer, deprimente. O atual governo cria incentivos fiscais reduzindo impostos para acelerar a economia produzindo automóveis e congestionamentos e com isto aumentando as doenças nas populações urbanas. Nada fazem para acelerar a economia brasileira por intermédio de sua maior riqueza. Sua cultura.
Ah! Lembrei-me. Já que se está falando em livros. No livro “Flor de Obsessão” um dos maiores dramaturgos do mundo. O Brasileiro Nelson Rodrigues. Escreveu:
O Brasil é muito impopular no Brasil.”
Mas, dê uma lida no texto da norte-americana sobre este país mestiço - em sua essência. 
Por que a opinião estrangeira importa tanto? Se eu elogio ou tenho interesse pela cultura local, o brasileiro não acredita. Se crítico, porém, ele se ofende. Quando a Folha pediu que eu escrevesse minhas impressões dos brasileiros, resignei-me como se estivesse diante de um déjà vu. Não era a primeira vez, e certamente não será a última, que os brasileiros perguntam o que acho deles. Mas antes que eu abra a minha boca, a primeira coisa que me passa pela cabeça é sempre outra questão: por que vocês se importam com o que eu penso? Ao longo do tempo que passei no Brasil, sempre que eu falava de minha pesquisa, sentia uma incompreensão mútua. Os cariocas pareciam confusos, perguntando-se por que diabos eu viera até o Brasil para estudar a música popular do Rio dos anos 1920 e 1930 e por que alguém estudava espanhol e português numa universidade americana. Eu sempre devolvi o ceticismo com igual vigor. Por que, afinal, todo mundo não estava estudando o Brasil? Por que as livrarias têm uma seção tão pequena de "literatura brasileira", a propósito? Nada disso fazia sentido para mim. Achava estranha a reação dos brasileiros após elogios à sua cultura.
Quando eu dizia que amava Clarice ou que viera para pesquisar Chico Alves, eu me convertia numa fonte incomum de alegria e surpresa. "Essa americana veio para estudar Noel Rosa!", berrou um estranho num bar em Copacabana, e uma pequena multidão se juntou para olhar e inquirir. É como se, no fundo, as pessoas não acreditassem que o Brasil é suficientemente interessante para merecer um estudo sério. Minha curiosidade funcionava como uma bênção vinda das alturas, lembrando que a cultura brasileira era parte do cânon universal. "Em Princeton há aulas de literatura brasileira?" Claro que sim! Eu tomo um curso de Machado de Assis no próximo semestre. Por outro lado, quando eu me sentia ousada o bastante para dizer que não tinha gostado de algo do Brasil, a reação podia ser desmedida. De novo, minha opinião raramente era tomada como algo ordinário. Imediatamente, informavam-me que eu não tinha a menor idéia daquilo sobre o que estava falando, e que tampouco tinha o direito de julgar as coisas do Brasil. Ou então as pessoas recuavam e diziam que eu estava certa, e que tal coisa ou tal pessoa eram de fato terríveis e simbolizavam exatamente o que ia mal no Brasil - e que, aliás, "precisávamos de estrangeiros que viessem aqui e nos contassem dos nossos próprios problemas". Não sou ingênua a ponto de pensar que o que querem é meu veredicto final sobre o país. Mas estranhamente essa é a sensação. De repente, não sou uma estudante de 20 anos que tem um blog; sou uma representante inequívoca da cultura ocidental, da elite universitária americana ou algo que o valha. Minha opinião, ainda que evidentemente subjetiva, adquire um valor que eu mesma não compreendo. Que importa se gosto de Noel ou se detesto Roberto Carlos? Minha opinião não muda nada. Quando discuto o Brasil com os brasileiros, freqüentemente tenho a sensação de que estou falando com um amigo maravilhoso, inteligente e talentoso, mas com uma misteriosa falta de autoestima. Ele não aceita totalmente os elogios que lhe faço, e é tão sensível que é quase impossível criticá-lo sem feri-lo. Estaríamos diante do velho complexo de vira-lata? O outro extremo -o patriotismo cheio de si que tantos americanos acham a coisa mais natural do mundo quando se trata de seu próprio país- é igualmente desagradável. Mas não haverá meio-termo? Sinceramente, eu gostaria de poder discutir o Brasil sem que metade do bar comece a brigar em torno de mim.



















Uma realidade nacional.







































A miséria da cultura
Não se teve saída. Em poucos dias. Mais uma vez. Obrigou-se a abrir este espaço virtual para o texto sempre bem vindo do Vladimir Safatle. Postado em http://www.cartacapital.com.br/ (em 27.05.12). Se você se interessa pela cultura brasileira. Leia.

Aqueles interessados na produção cultural brasileira devem ter percebido uma equação inusitada. Enquanto a última década foi marcada por um crescimento econômico real e pelo advento de uma dita nova classe média, a cultura brasileira parece em ritmo de estagnação.
 Interessante notar que os momentos de crescimento econômico brasileiro foram acompanhados pela consolidação da produção cultural. Desde ‘Cidade de Deus’, o cinema nacional parece ter se acomodado à exposição da vida social, a partir das lentes da violência espetacular. O melhor exemplo foi o boom de crescimento do fim dos anos 1950 e começo dos anos 1960. Ele foi acompanhado da maturidade de nossa melhor produção literária (Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto), pelo melhor de nossas artes visuais (Hélio Oiticica, Lygia Clark e o grupo ‘Neoconcreto’), pela bossa nova, pelas experiências teatrais de vanguarda e pelo aparecimento do cinema novo. Nada sequer parecido foi identificado nesta última década. Não é possível colocar a conta da improdutividade em alguma espécie de espírito geral de época. Vemos vários exemplos de países que conseguiram nesses últimos anos apresentar produção cultural significativa. A Argentina e seu cinema de alta qualidade, que vem desde as produções de Lucrecia Martel, é um exemplo paradigmático. Poderíamos lembrar ainda do Chile e de sua literatura (Roberto Bolaño foi sem dúvida um dos grandes escritores do começo do século). Mesmo a China com seu crescimento tem apresentado bons artistas plásticos, além de uma impressionante quantidade de intérpretes relevantes de música erudita. Várias são as razões que podemos levantar para esta miséria da cultura brasileira, com suas honrosas exceções. Podemos começar pensando sobre o cinema nacional. Desde ‘Cidade de Deus’ (Fernando Meirelles, 2002), o cinema nacional parece ter se acomodado à exposição da vida social, a partir das lentes da violência espetacular e da visualidade de alto impacto herdeiro da estilização publicitária. Uma via coroada com ‘Tropa de Elite’ e que parece expor como o desejo de constituir uma indústria do entretenimento transformou-se na essência da produção cultural nacional. Não é sem interesse comparar essa via com aquela traçada pelo cinema argentino. A diferença entre as duas experiências não deve ser posta apenas na conta da ausência de dinheiro do cinema argentino ou do fato de seus principais diretores não terem vindo, como no Brasil, do mercado publicitário. Na verdade, estão em jogo aqui a maneira com que sociedades decidem como integrar seus conflitos, os impasses de seu passado. A maneira com que a sociedade pensa a si mesma, narra para si mesma seus próprios impasses. De fato, a avaliação da produção brasileira em setores como artes plásticas e música apenas reitera como a verdadeira preocupação nacional é a inserção do Brasil como player no mercado internacional de entretenimento e de glamour de alta comercialização. Dificilmente poderíamos descrever de outra forma produções de artistas como Beatriz Milhazes ou Vik Muniz. No interior desse processo, o Brasil perdeu, inclusive, a capacidade de transformar sua música popular e seus músicos em debatedores preferenciais da vida sociocultural nacional. Por mais que se possa discordar das intervenções de músicos como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé ou Chico Buarque, é fato que não se espera mais de músico popular algum uma capacidade de reflexão sobre os meandros da vida nacional.
Nesse sentido, o modelo de financiamento público da cultura apenas aprofunda essa tendência. Ao transformar indiretamente os departamentos de marketing das empresas em atores que decidem sobre qual produção será financiada, instrumentos como a ‘Lei Rouanet’ acabam por reforçar a tendência de vazio cultural no campo da cultura. Corre-se assim o risco de a cultura brasileira do século XXI ser lembrada pela sua bem-sucedida inserção mercantil e pela incapacidade de ser o que toda arte deve ser: a imagem daquilo que a sociedade ainda não é capaz de pensar.

















Bansky
Afirma. O conhecedor e aficionado neste tipo de arte. O Bansky é o artista de rua mais famoso do mundo. Este inglês da cidade de Bristol é um talentoso pintor, ativista político, diretor de cinema e principalmente grafiteiro. Um artista cheio de sátira e muita subversão. Cheio de humor negro. Muitas ruas, muros e pontes em diversos lugares pelo mundo foram por ele grafitados com desenhos de alta qualidade. Banksy não vende seus trabalhos. Embora alguns leiloeiros de arte tentassem vender suas obras nos locais de produção. Tiveram grande problema. Como remover os seus desenhos para as mãos dos compradores. Nas caminhadas sem destino pela internet descobriu-se este arbusto bem aparado. É uma de suas mais recentes instalações de rua arte que pode ser encontrado em Londres. O inglês não é notável? Ah! Ia esquecendo. Bansky é pseudônimo. 


























Não se esqueça.  vida lhe virar as costas.
Passe a mão na bunda dela. pois? 
Dê muita risada.





















Celso Mathias.
O companheiro Julio Zartos apresentou-me este Carioca ilustrador e artista plástico. Soberbo registrando as figuras do cotidiano de Copacabana. Infelizmente impossível de compartilhar com vocês. Entretanto. Felizmente. O Celso Mathias um artista multifacetado produz algumas obras que se pode ter acesso virtual e postá-lo. Viajem comigo na arte do brasileiro Celso Mathias.
























O nu. A arte. 
A  arte do pintor francês.
Gustave Coubert,

"Em cada cultura e durante todos os tempos,
os artistas foram cativados pela figura humana".
(Thomas Campbell. Diretor do Metropolitan   
Museum of Art de Nova York )

                                                    "Mulher com um papagaio" (1866)





















A cultura como campo de combate.
O Professor da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP). Vladimir Safatle. Produziu o texto que segue. Foi publicado na revista Carta Capital em 14/05/2012 (http://www.cartacapital.com.br/). Sugere-se. Pare. Dê uma lida. Vale. Parar. O Safatle sabe das coisas. Leiam:

Um dos fenômenos sociais mais importantes dos últimos anos é a transformação da cultura e da modernização dos costumes em setor fundamental do embate político. Durante os anos 1970 e 1980, a cultura fora um campo hegemônico das esquerdas. Este não é mais o caso. Há de se perguntar o que ocorreu para encontrarmos atualmente um processo de politização da cultura por parte, principalmente, de representantes da direita. Poderíamos dizer que a direita do espectro político teria compreendido que a população, em especial as classes populares, é naturalmente conservadora nos costumes, pois avessa a questões como aborto, casamento homossexual e políticas de discriminação positiva. Da mesma maneira, ela seria conservadora em cultura, pois mais sensível ao peso dos valores religiosos na definição de nossas identidades e de nossos “valores ocidentais”. É possível, porém, que o movimento em questão seja de outra natureza. Em um astuto livro chamado ‘O Que Há de Errado com o Kansas?’ o ensaísta norte-americano Tom Frank lembra como o pensamento conservador soube se aproveitar do sentimento de abandono social das classes populares. Frank serve-se do Kansas para perguntar: como um dos estados politicamente mais combativos dos EUA nas primeiras décadas do século XX tornou-se um bastião conservador? Sua resposta é: sentindo-se abandonado pelas elites intelectuais esquerdistas cosmopolitas que, à sua maneira, não foram completamente prejudicadas pelos desmontes neoliberais, as classe populares deixaram que um conflito de classe se transformasse em um conflito cultural. Em vez de se voltarem contra os agentes econômicos responsáveis por tais desmontes, elas se voltaram contra o modo de vida que representaria as elites liberais. Neste deslocamento, os responsáveis pelo empobrecimento dos setores mais vulneráveis da população apareceram como os portadores dos “verdadeiros valores de nosso povo”. Desta forma, a direita pode falar menos sobre economia e mais sobre hábitos e cultura. Ela pode, inclusive, tentar instrumentalizar o anti-intelectualismo, como vimos nas reações caninas contra a Universidade de São Paulo e seus departamentos de Ciências Humanas à ocasião dos conflitos com a Polícia Militar. Mesmo a discussão européia sobre a imigração deve ser lida nesta chave. Qualquer pessoa séria sabe que a discussão sobre imigração nada tem a ver com economia. Quem quebrou a Europa não foram os imigrantes pobres que servem de mão de obra espoliada e desprovida de direitos trabalhistas. Na verdade, quem a quebrou foi o sistema financeiro e seus executivos “brancos e de olhos azuis”. A discussão sobre imigração é um problema estritamente cultural. Maneira de deslocar conflitos de classe para um plano cultural. Este é um fenômeno parecido ao ocorrido em países como a Tunísia após a Primavera Árabe. Feita por jovens esquerdistas diplomados e filhos da classe média tunisiana, a revolução permitiu a vitória de um partido islâmico (Ennahda) porque, entre outras coisas, eles souberam captar a lassidão das classes populares em relação à classe média europeizada de cidades como Túnis e Sfax. Os islâmicos souberam dizer: “O desprezo a que vocês foram vítimas durante todos esses anos é, no fundo, desprezo aos valores que vocês representam desprezo ao nosso modo de vida de alta retidão moral contra a lassidão dos mais ricos”. Mudam-se os agentes, mas a estrutura do discurso é a mesma. (grifo nosso) Contra isso, a esquerda não deve temer entrar no embate cultural e dos costumes. Devemos quebrar as tentativas de nos fazer acreditar que as classes populares são naturalmente conservadoras e mostrar como a cultura virou uma forma de o capitalismo absorver o descontentamento com o próprio capitalismo. A melhor maneira é mostrar como o modo de vida baseado na modernização dos costumes e da cultura tem forte capacidade de acolher as demandas populares. Por exemplo, boa parte dos absurdos falados contra o casamento de homossexuais vem do medo de desagregação das famílias em ambientes onde elas aparecem como núcleos importantes de defesa social. Talvez seja o caso de lembrar que nenhum estudo demonstra que famílias homo parentais são mais problemáticas do que famílias tradicionais. Famílias tradicionais também são bons núcleos produtores de neuroses. Ou seja, os impasses e dificuldades da família continuarão, com ou sem famílias homo parentais. Mostrar a fragilidade de nossos “valores” e “formas de vida” é uma maneira de quebrar a fixação a um estado de coisas que não entrega o que promete. 






 















'Você me descobriu, em todos os sentidos. (...)
Você me capturou com o olhar e agora estamos assim,
quase frente a frente, procurando
 um caminho em comum.'

                                                      (Martha Medeiros)






















Abaixo à rotina!
Desabafo de uma jovem da geração Y.
Texto de Betty Milan. Psicanalista e escritora. Publicado na revista VEJA (15/06/2011, pg. 137). Fonte: http://www.focoemgeracoes.com.br/
O que significa envelhecer? Ouso perguntar o significado do verbo, que a modernidade ocidental baniria da língua se pudesse. No primeiro sentido do dicionário, envelhecer é tornar-se velho. Leio e releio a frase, que me remete a um amigo de infância, Francisco, precocemente envelhecido. Continuo, no entanto sem resposta. Volto ao dicionário. No segundo sentido, envelhecer é tomar aspecto de velho. Olho a foto do psicanalista francês Jacques Lacan que está na parede e observo seus cabelos brancos. Só que ele não se mostra envelhecido pelas suas cãs. A intensidade do seu olhar evidencia a juventude do homem – que permanecia jovem aos 74 anos, quando o conheci. Só bem depois ele perdeu o aspecto jovial. Nos outros sentidos fornecidos pelo dicionário, também não encontro uma resposta satisfatória. No caso dos seres humanos, não se pode dizer que envelhecer é perder o viço. O homem não é um fruto. Tampouco não é um objeto. A busca de uma definição precisa, por meio de língua, se revelou estéril. Olho de novo para a foto de Lacan e concluo que o envelhecimento físico, por si só, não é suficiente para caracterizar um velho. Eu me pergunto, então, por que ao contrário de Lacan, meu amigo Francisco envelheceu aos 60. Citando e comparando-se a Pablo Picasso, o pintor espanhol, Lacan dizia que não procurava as suas ideias, simplesmente as achava. Um dia, declarou em um dos seus seminários: “Eu agora procuro e não acho”. Com essa frase, anunciou que a sua vida se apagava. Pouco depois, tomei o avião de volta para o Brasil. Naquele período, a única razão para eu ficar no França era a oportunidade de trabalhar com ele.
A juventude de Lacan, como a de Picasso, estava ligada à capacidade de se renovar através do trabalho. Duas vezes por mês, ele falava em público, para platéia de 1000 pessoas, com ideias novas, uma atividade que demandava grande esforço. Mais de uma vez, encontrei-o exausto, em seu consultório. Lacan foi um exemplo por nunca ter parado de começar. Embora fosse um intelectual, meu amigo Francisco acreditou que, a partir dos 60 anos, já não podia iniciar nada e, por esse motivo, não parou de se repetir. Não quis, inclusive, abrir mão de nenhum hábito da juventude. Continuava a comer beber e fumar como aos 18. Lamentava o tempo que passava, porém não aceitava o fato traduzido nas mudanças do corpo e, assim, recusava-se a encontrar soluções para sua própria vida. Só sabia dizer: “Na minha idade é assim”. Foi vítima de uma fantasia arcaica sobre o tempo e viveu na contramão. Fazendo de conta que o tempo não existia. Morreu precocemente por não ter sido capaz de entender que, depois de deixar de ser natural, a juventude é uma conquista.



















Compreendido. Aceitável.
Afinal é o seu mundo.
Mas...















(Fonte: http://aquitailandia.blogspot.com.br/)





















                                      Manuel Álvarez Bravo

 


É impossível falar da fotografia mexicana do século XX sem citar
Manuel Álvarez Bravo (1902-2002)
dizem os especialistas desta área. Afirmam ser ele um dos grandes ícones da fotografia mundial. Um exímio jogador do claro-escuro. No Rio de Janeiro, nestes tempos, no Instituto Moreira Salles, está sendo apresentada uma coletânea de seus trabalhos.
Não podendo vê-las. Saciou-se nosso desejo visitando a internet.
Escolhido algumas de suas obras compartilha-se com vocês. Juntos.
Conhecermos um pouco da arte fotográfica do mexicano Manuel Bravo.



























Nem aos Domingos
Visitando o sitio  http://www.digestivocultural.com/ (2/5/2012) encontrei este texto da Marília Mota Silva. Formidável. Ao mesmo tive conhecimento da existência de um livro que obrigatoriamente deve ser lido. E descobri a palavra ‘homoternurismo’ que nos acompanha – nós homens – desde a infância. E, sem nenhuma dúvida, a Marília Mota Silva registra uma realidade. Nossa dependência delas. Ah! Elas. No momento que a caminhada por este planeta está chegando ao fim. Acredito que você. Seguramente se for uma – delas. Vai gostar de ler este texto.

Outro dia, um desses amigos de internet, que gosta de repassar power points que pingam letrinhas, piadas sexistas e textos provocativos, me mandou essa crônica de Mario Prata:

'Homem gosta de homem!”.
 Disse, corajosamente, o cartunista Miguel Paiva (Radical Chic) na semana passada no gostoso (e gostosa) Marília Gabi. É preciso ter peito para fazer-se uma declaração dessa em público. E, quem tem peito, geralmente, são as mulheres.E a Marília retrucou:- Mulher também.
Escrevi e montei uma peça há uns anos atrás, chamada Bésame Mucho (que depois virou filme do Ramalho). Esta peça tratava justamente deste assunto. A relação de ternura entre dois homens. Da infância até a maturidade. Antes que alguém viesse dizer que era coisa de viado, tive que inventar uma palavra para explicar a relação entre os dois personagens masculinos. A palavra era "homoternurismo" e, para minha infelicidade, até hoje não se incorporou ao Aurélio.
Mulher é bom, é ótimo, nem se discute. Mas que os homens preferem os homens, também não se discute. Desde a infância, menino gosta de brincar com menino. Clube do Bolinha. Menina não entra! Na adolescência, é a mesma coisa. Temos olhos para os seios e os bumbuns da meninas, mas no meu time de futebol elas não entravam. Era rapaz de um lado e as meninas do outro. A gente casa, ama a esposa da gente, tem filhos, mas não vê a hora de ir para o botequim tomar umas e outras com os amigos. Os amigos do peito. Já notaram que os homens não têm amigas do peito? Têm amigas com peito. Na hora da confidência mais confidencial, na hora do aperto, do ombro amigo, é o amigo do peito (para se chorar) que está ali. Favor não confundirem, jamais, homoternurismo com homossexualismo. E a gente vai crescendo e vai formando o nosso time de amigos eternos, confiáveis, pau (ops!) pra toda obra.
O domingo, por exemplo, foi feito para se passar com os amigos. O jogo de futebol, os gols na televisão, a cervejinha gelada. Mas qual é a mulher que não quer ir a "um cineminha" no domingo?
Devia ser proibido mulheres aos domingos, dizia um meu amigo do peito, casado.
Tudo isso que eu escrevi aí em cima, se for mesmo válido, só é válido até uma certa idade. A idade que eu estou agora. Quase cinqüenta anos, cheio de amigos e sem nenhuma mulher. Talvez por pensar assim. "Um misógino!", diriam elas. Mas o mesmo Aurélio, que não consolidou o homoternurismo, diz que misoginia é uma "repulsa mórbida do homem ao contato sexual com as mulheres". Não é o caso. E, outro dia, discutia isso com um velho amigo velho de 84 anos. Ele concordou, em termos, do alto de sua sabedoria de ancião. Mas fez uma ressalva. Jogou na minha cara:
- Daqui para a frente, é melhor começar a convidar mulheres para ir ao jogo de futebol. É melhor ir aprendendo a tomar caipirinha com mulheres no sábado antes da feijoada. Já está na hora de parar de reparar apenas nos seios e nas bundinhas da mulheres. As mulheres têm mais alma que os homens!
- E daí?, respondeu o machão aqui.
- E dai, meu filho, que você na velhice vai ficar chato, intransigente, metódico, sistemático. Aliás, já está ficando. E não tem nenhum amigo do peito nessa hora para te socorrer. Se você chegar sozinho na velhice, não conte comigo, que eu já fui embora. Quem sempre cuidou de você foram as mulheres. A começar pela sua mãe.
- Você está querendo que eu arrume uma outra mãe?
- Não, meu filho. Uma mulher. Vai por mim, mulher é muito melhor que homem. E quanto mais velhas ficam, melhor nos entendem. Ao contrário dos homens.
E pediu mais uma caipirinha, enquanto olhava o traseiro da jovem, muito jovem, garçonete. Encerrou, com o olhar distante:
- Mulher é o que há, menino! Trate logo de arrumar uma, enquanto você está vivo... E quer saber de mais uma coisa? Esse papo de homoternurismo, pra mim, é coisa de viado! '
Não pode ser, pensei. Seria muita boçalidade!
Para tirar a dúvida, enviei a crônica para quinze amigos, homens com mais de quarenta anos, e pedi que me dissessem se concordavam com o que a crônica dizia.
A resposta unânime foi que "sim, sim, é exatamente isso. A crônica diz a verdade". Alguns acrescentaram um "Infelizmente", como que se desculpando.
Mesmo assim, não me convenci.Eles se subestimam!
Que homem goste de homem está muito bem. As mulheres também se divertem mais entre si. Mas que precisem castrar as mulheres, reduzi-las a peitos e bundas, isso não pode ser. Seria muito deprimente.
Mulher devia ser proibida aos domingos, diz a crônica. É o dia que elas gostariam de ir a um cineminha. (No resto da semana, há trabalho, duas jornadas pelo menos, se não tem filhos).Mas eles reviram os olhos, agoniados: o domingo foi feito para passar com os amigos! É dia em que eles assistem ao futebol, bebem cerveja e trocam olhares úmidos, carregados de homoternurismo.
Mas há uma ressalva, o autor adverte: tudo isso só vale até lá pelos cinqüenta anos.
Aí a coisa muda de figura. Os rapazes viram velhos com problema de próstata e cólon. Passam direto da fase narcisística infantil para a velhice infantil. Os amigos desaparecem e eles precisam de quem cuide deles.
...Você na velhice vai ficar chato, intransigente, metódico, sistemático. Aliás, já está ficando. E não tem nenhum amigo do peito nessa hora para te socorrer...Quem sempre cuidou de você foram as mulheres. A começar por sua mãe".
Então é isso: À beira da velhice e suas mazelas, os homens devem procurar uma companheira, não porque a idade lhes ensinou a amar algo além de si mesmo e seu reflexo no espelho, mas porque precisam de alguém que cuide deles: um combo de empregada, governanta, secretária, enfermeira, acompanhante. Sem remuneração, direitos trabalhistas, turnos, folgas, horários. E que agüente tudo. Em outras palavras: Uma mulher, esposa, companheira. É o resumo da peça.
Dois pontos, duas perguntas se instalaram em minha mente, a partir dessa crônica.
O que esse senhor casadoiro, com a barriga redonda de cerveja, a inteligência e a bondade de um cascalho no sapato, a deduzir da crônica, misógino e homoternúrico teria a oferecer à mulher escolhida? Ele não pensa nisso, não se preocupa com isso!
E o segundo ponto que, de certa forma, responde o primeiro, mas não deixa de ser mais intrigante ainda: Por que há mulheres que aceitam isso? Ideias, sugestões serão bem-vindas. De qualquer maneira, continuo otimista. Essa crônica é antiga, do século passado, e as coisas mudam. Somos uma espécie que se reinventa o tempo todo e acredito nos que estão chegando. Outro dia mesmo li aqui no Digestivo uma coluna de Jardel Dias Cavalcanti falando de mulher: sem afetação, sem mitificação, sem condescendência, sem gracinhas. Respirei fundo e sorri pra tela, agradecida. Tudo é possível.


















 

A vaidade do artista.

“Para o artista, por definição, a vida sem público não faz sentido.
Nem que seja um público imaginário e
futuro que existe só na sua cabeça.
A vaidade é tudo o que um artista tem. ”
                                                 
Alex Castro produziu este texto. Ele é editor do sitio “Papo de Homen” ( http://papodehomem.com.br/ ). Impossível não reproduzi-lo aqui. Acredito será bem interessante lê-lo. Em especial, para aquele que convive ou conviveu com eles. Os artistas. Aqueles que não conviveram com eles não tem noção do que é - um poço de vaidades.
 
Não acredito em artista não-vaidoso. É necessário muita vaidade para se sentar diante da página em branco e achar que pode acrescentar algo a Shakespeare e Machado de Assis. Ou para subir no palco onde interpretou Paulo Autran, ou criar na tela onde pintou Di Cavalcanti.Uma vez, critiquei um jovem escritor citando Machado e ele protestou:
“- Pô, é covardia me comparar com o Machado!”
Mas não é.Se você é brasileiro e se propõe a escrever ficção, quem está se comparando a Machado é você, ao presumir se meter na área onde ele é a referência incontestável.Ser escritor de ficção no Brasil e não querer ser comparado a Machado de Assis é como ser jogador profissional de futebol, entrar em campo contra o antigo Santos e não querer ser driblado pelo Pelé.
“- Pô, Pelé, roubar a bola de mim é covardia.”
Colega, você entrou em campo porque quis. Agora, agüenta.
É a vaidade que nos faz entrar em campo e, ao longo dos muitos anos de frustrações e derrotas que todo artista enfrenta, é a vaidade que nos mantém em campo. Antes de subir ao palco, a Claudia Raia tem um mantra: pede humildade, para que sua vaidade não se sobreponha ao personagem. Sábia diva. O historiador Evaldo Cabral de Mello comentou que Gilberto Freyre era intragável de tão vaidoso. Evaldo é autor de uma das grandes obras historiográficas do Brasil e como quase todo acadêmico, deve ser vaidoso também.
Mas a vaidade de um professor universitário é uma distração diletante comparada à vaidade profissional de um artista.
Basta ler Casa-Grande & Senzala para saber que Freyre era, antes de tudo, um artista e um dos maiores que já escreveram qualquer coisa, prosa, poesia ou ensaio, na língua portuguesa. Talvez por isso só tenha sido reabilitado pela academia quando morreu, quando sua presença física desconcertante não mais atrapalhava a consideração de sua obra.
Os tímidos são os piores. Quem auto-publica contos, faz lançamento na mercearia, se auto-promove feito puta e participa até de antologia de bula de remédio não tem metade da vaidade megalomaníaca do outsider que não sai de casa, despreza os contemporâneos, mal se interessa em publicar e, em sua cabeça, só dialoga com o futuro, com a posteridade, com o eterno, com o transcendental! Espalhados no continuum de vaidade entre a puta da mercearia e o outsider da quitinete estão todos nós, cada um onde pode. Como conviver com a vaidade alheia Estou cuidadosamente evitando aquela velha falácia de minimizar seus defeitos extrapolando-os para os outros: Sim, roubei, mas qualquer um roubaria na minha situação, etc.
Não digo que artistas são todos vaidosos só porque eu sou um poço borbulhante de vaidade incontrolável (aliás, sou) e daí conclui que todo mundo deve ser igual. Digo isso porque passei a vida cercado de artistas.Quem nunca conviveu de verdade com um artista, seja como familiar, cônjuge ou amigo próximo, não faz idéia do que é a vaidade de um artista profissional. A mais tímida e humilde dançarina contemporânea tem uma vaidade profunda e constitutiva que deixa no chinelo a mais fútil e vaidosa engenheira, professora ou publicitária.Um diretor de criação, que vive de vender pasta de dente e se acha tão criativo e tão vaidoso, não subsiste só de sua descomunal vaidade, mas ganha também um polpudo contra-cheque ou, pelo menos, espera ganhar no futuro.Já para a dançarina contemporânea, durante grande parte ou toda sua carreira, a vaidade da beleza realizada, do movimento perfeito, da arte ideal, será toda a recompensa que terá para subsistir. Enquanto isso, as ciências atuariais estão sempre aí, nos tentando com uma carreira segura na lucrativa indústria de seguros.
Lidar com um artista não é para qualquer um.
É necessário uma tolerância específica e temperamental à vaidade e ao auto-centramento alheios.Todas as mulheres com quem me envolvi romanticamente chegaram a mim através dos meus textos. Sem exceção. Até aquelas que conheci por outros meios só se interessaram por mim como homem depois de saber que aquele colega de trabalho “escrevia umas coisas aí” e pedirem pra ver.Depois desse primeiro momento, encarando o desafio de se propor a amar um homem vaidoso, elas se dividiram em dois grupos: as tietes mantiveram sempre uma postura de “fãs número um”, se envolviam em minha carreira, lutavam por minha arte; as ausentes, talvez imaginando que meu ego já era grande demais, faziam questão de não alimentá-lo e ignoravam estoicamente minha carreira e minha arte, tratando-as como se fossem um emprego qualquer. Hoje, aos quase quarenta anos, eu diria que a segunda postura é mais condizente com um relacionamento sério de longo prazo.A função mais importante da esposa de Shakespeare é justamente mandar ele parar com essa masturbação mental de ser ou não ser e ir lavar a porra da louça, que ela não vai se lavar sozinha.Sem o memento mori, a vaidade vira megalomania.Ao que a vaidade nos obriga. Meu mantra pessoal é: antes de recusar qualquer coisa, me pergunto:“estou recusando por pura preguiça?”.Antes de aceitar,“estou aceitando por pura vaidade?”Noventa por cento de tudo que faço ou deixo de fazer é por preguiça ou vaidade.Dependendo do artista, a conta da vaidade pode chegar a 100%, pois até sua sobrevivência é um ato de vaidade, seja porque acredita que sua vida é sua obra de arte, seja porque deseja viver apenas para poder brilhar de novo e, se não fossem os aplausos e os holofotes, já teria desistido desse mundo.Para o artista, por definição, a vida sem público não faz sentido. Nem que seja um público imaginário e futuro que existe só na sua cabeça.A vaidade é tudo o que um artista tem
Se uma pessoa diz que é bióloga e alguém duvida, ela mostra o diploma. Se duvidam que é vice-presidente de vendas, é só puxar o cartão de visitas.Mas artista? Para muita gente, se dizer artista por si só já é arrogante ou vaidoso: Quem ele pensa que é, hein? O artista depende sempre do olhar do outro e não existe validação incontestável ou reputação inexpugnável.
Paulo Coelho é o autor em língua portuguesa que mais vendeu em todos os tempos e muitas pessoas afirmam, sem a menor dúvida nem cerimônia, que ele não é escritor e pronto. Artistas plásticos que dedicaram toda a vida ao estudo e à prática de sua arte são rotineiramente chamados de “charlatães” ou “picaretas” por gente que não entende nada de arte, mas acha que “faria igual”. Um engenheiro, se construir um prédio que cai, será considerado um mau engenheiro, um engenheiro criminoso até. Idem para o médico que mate o paciente.
Já o artista nunca está livre de ser sumariamente despido de sua condição de artista. Graças ao mesmo mecanismo que faz a auto-afirmação “sou artista” parecer arrogante e vaidosa (pois as pessoas percebem “ser artista” como algo intrinsecamente bom), uma crítica a um artista muitas vezes não se limita a atacar sua arte ou suas escolhas artísticas, mas também lhe nega a própria condição de artista (afinal, ser artista é intrinsecamente bom, e ele não é bom…. é um charlatão!). Ou seja, despido da segurança oferecida por um diploma ou por alguma forma de validação incontestável, o artista é forçado a se auto-afirmar artista, na esperança que outras pessoas concordem e também o vejam como artista, mas quanto mais se auto-afirma artista mais é hostilizado ou criticado pela vaidade e arrogância de se auto-declarar artista. Esse círculo vicioso de bipolaridade constitutiva, onde a obrigatoriedade de se auto-promover vem junto com os ataques pela vaidade arrogante da auto-promoção, é simplesmente massacrante.
Às vezes, quase me esmaga. E como se deve portar um artista?
Ser artista e não ser narcisista é impossível.
Hoje, o desafio da arte é outro: como ser artista/narcisista, em um mundo onde o Pinterest e o YouTube, o Twitter e o Facebook, não só estimulam um narcisismo generalizado galopante como permitem que qualquer um tenha um público?
A internet tornou-se a primeira barreira de entrada: se a sua arte, gráfica ou narrativa, em vídeo ou em música, não é melhor do que o grosso da produção amadora que pode ser consumida gratuitamente pela internet, talvez você devesse mesmo considerar aquela sólida carreira em seguros. A luta contra a vaidade é um exercício sisifeano diário de autoconhecimento e disciplina. Encaro minha vaidade como os holandeses encaram o Mar do Norte: já estava lá quando nasci, me define, me possibilita, me traz prosperidade e, se não for contido, me devora.